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quinta-feira, 27 de junho de 2019

OS SETE PRINCÍPIOS DO BUSHIDO

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O Bushido (武士道) ou “Caminho do Guerreiro” é uma espécie de código de conduta que era levada muito a sério pelos samurais. Trata-se de regras baseadas em princípios morais na qual o guerreiro samurai tinha o dever de segui-las a todo custo, não só no campo de batalha como também em sua vida diária.

Embora a maioria dos samurais seguisse o Código de Conduta Bushido, havia aqueles que não respeitavam os princípios básicos e com isso traziam desonra e má reputação sobre ele e sua família. Um samurai sem honra era uma coisa imperdoável e a única forma de lavar a sua honra era através do Harakiri/Seppuku (Ritual de Suicídio).

O Código de Conduta Bushido foi formado e influenciado pelos conceitos do Budismo, Xintoísmo e Confucionismo. E o mais interessante é que apesar desse conceito ser muito antigo, ele ainda é válido para os dias de hoje e pode ser útil para todas as pessoas do planeta. Incorporando esses princípios no nosso dia a dia, podemos nos tornar com certeza “seres humanos” melhores! 


Conheça os 7 Princípios do Bushido:

1. 義 GiJustiça, Retidão e Honestidade
Seja honesto em todas as suas relações. Acredite na Justiça, não a que é dada pelos outros, e sim na sua própria justiça. Para um autêntico samurai não existem tons de cinza em relação à honestidade e justiça. Só existe o certo e o errado. E pra ser justo é necessário fazer o julgamento correto em relação à tudo em sua vida.

2. 勇 YuuCoragem, Bravura heroica
Um samurai deve ter coragem heroica. Viver é arriscado e perigoso e esconder-se como uma tartaruga se esconde em sua concha não é a maneira mais adequada de viver. Devemos aprender a viver a vida ao máximo, intensamente. Substitua o medo pelo respeito e cautela. A coragem heroica não é cega, ela é inteligente e forte.

3. 仁 JinCompaixão, Benevolência
Através de um treinamento intenso o samurai torna-se rápido e forte, porém ele usa essas habilidades para fazer o bem para as pessoas e tem compaixão por elas. Amor, amizade, solidariedade e nobreza de sentimentos são considerados como os maiores atributos da alma. Ajude seus colegas em todas as oportunidades que houver.

4. 礼 ReiRespeito, Polidez e Cortesia
O Samurai não tem nenhuma razão para ser cruel. Não há necessidade de provar a sua força. Um samurai é cortês até mesmo para com os seus inimigos. Se não fosse assim, ele não seria melhor do que qualquer animal. Um samurai é respeitado não só por sua coragem, mas também pela forma como eles tratam os outros.

5. 诚 MakotoHonestidade, sinceridade absoluta
Mentir é um ato considerado covarde e desonroso e portanto quando um samurai diz que vai fazer tal coisa, é como se ele já tivesse feito. Nada no mundo conseguirá impedi-lo de concretizar o que disse. Um samurai não precisa dar a sua palavra e nem precisa prometer nada. Quando um samurai fala, é porque ele vai agir.

6. 名誉 MeiyoHonra, Glória
O verdadeiro samurai só tem um juiz de sua honra, e este juiz é ele mesmo. As escolhas que você faz e como você trabalha para obtê-las são um reflexo de quem você realmente é. Você não pode se esconder de si mesmo. Muitas das nossas decisões são influenciadas pelos outros, o que nos faz parecer hipócritas.
Dizemos muitas vezes o que os outros querem que digamos, vemos o que os outros querem que vejamos. Ouvimos o que os outros querem que ouçamos. O valor da nossa dignidade pessoal está implícito na palavra honra. “Desonra é como uma cicatriz em uma árvore que o tempo, em vez de curar, só ajuda a aumentar.”

7. 忠 ChuuDever e Lealdade
Um samurai é extremamente leal àqueles que estão sob seus cuidados. Por quem ele é responsável, ele permanece fiel. Suas palavras e suas ações pertencem à você, assim como todas as consequências que se seguem a partir delas. “A palavra de um homem deve ser como sua impressão digital: Você deve levá-la aonde quer que vá”.
“Seguir o Bushido é dar ênfase à lealdade, fidelidade, coragem, justiça, educação, humildade, compaixão, honra e acima de tudo, viver e morrer com dignidade”. Quando aplicamos esses princípios em nossa vida conseguimos melhorar nosso potencial humano. Pra finalizar, uma frase do samurai Miyamoto Musashi:
“A vida de alguém é limitada, porém a honra e o respeito duram para sempre”.

(*) O nome "samurai" () significa, em japonês, "aquele que serve".

A SÍNDROME DA VOLTA

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Uma situação muito conhecida dentro da comunidade nipônica é a "síndrome do dekassegui", após longos anos trabalhando no Japão e que na volta encontra uma série de dificuldades na sua readaptação em solo brasileiro.

Este acontecimento em si acarreta consequências de complexidades múltiplas porque envolve o lado emocional, psicológico e mental da pessoa que retorna ao convívio familiar.

Sente que os laços afetivos sofreram profundas mudanças e o meio em que vivia anteriormente no Brasil encontra-se totalmente transformado. Este novo quadro que surge diante dos olhos choca de imediato.

Sem o apoio familiar - que não percebe o choque -, o dekassegui entra num processo de conflito interior que se não for detectado a tempo pode levar o indivíduo ao estado de desequilíbrio psico-emocional.

O fato de se sentir "fora do ar", entra muitas vezes em pânico a qualquer sinal de desconforto que ocasiona uma insegurança. Começa a sentir saudades do Japão e da "segurança" de lá que está cristalizada em sua mente.

A história que se repete todo ano é mais ou menos parecida com as imagens gravadas numa filmadora, quando algum membro da família vai partir para um outro país e resolve gravar parte da sua vida antes da viagem.

Encontros com amigos, festas com familiares, passeios pelos lugares preferidos, a cidade, o bairro, a rua, a vizinhança, os colegas de trabalho. Vai gravando tudo para poder matar a saudade quando estiver longe de casa.

No dia da viagem registra tudo na filmadora. Cada abraço, cada beijo é gravado com carinho. Lágrimas e sorrisos. Despedida marcada pela emoção. Promessas e juras. O compromisso da volta e a certeza da vitória.

Na hora de embarcar a filmadora é desligada. As imagens serão levadas juntas como únicos tesouros. Lembranças daqueles que ama. Colírio para os olhos marejados e um bálsamo para aliviar a ausência de entes queridos.

Por anos fica na expectativa da volta, ansiando contar tudo o que viu e viveu. Guarda cada momento para poder relatar com detalhes. Alegrias e tristezas, marcadas a "ferro e fogo" num país cheio de contrastes.

Chega o dia de voltar para casa. Deixa atrás de si um longo rastro vivido num país que no início pareceu estranho e bizarro, mas que depois tornou-se a sua segunda casa. Um lugar para se guardar no álbum de recordações.

Habituou-se à sua gente, com o seu modo de vida, tradição milenar, uma sociedade de primeiro mundo, com alta tecnologia. Fez novos amigos. Criou laços afetivos que trarão uma nova dor. A da partida, novamente.

Mas tem que partir. Voltar ao antigo lar. E com lágrimas e sorrisos faz a viagem de volta esperando rever todos os entes queridos e os "velhos" amigos. Guarda ainda na lembrança aquele dia em que partiu para o Japão.

Atravessa metade do planeta ansioso pelo reenconro. A saudade batendo forte no peito. Desembarca no aeroporto de São Paulo. A emoção da volta o domina, mas fica aquele vazio: "Onde estão todos?!"

Em seu subconsciente grava cada instante. O tempo nublado, frio e úmido. O vento gelado faz o seu corpo tremer. Seus ossos chacoalham. Faz esforço para manter as pernas firmes. Sua memória viaja no tempo. Passaram-se dezesseis anos!

Antes, várias tentativas para o retorno já haviam sido feitas em vão. Sempre a mesma imposição: "É melhor você ficar aí no Japão, aqui no Brasil está ruim!". A única vez que conseguiu voltar ao país de origem, ficou um ano e meio.

Sentia-se cansado dos longos anos vivendo num país longínquo e, com a idade de meio século queria recomeçar uma nova vida em sua terra natal. A aposentadoria era uma de suas principais preocupações.

Durante três anos, enfrentou desafios, conflitos e decepções. Superou a crise de identidade que abateu muitos dekasseguis que retornaram ao Brasil. Passou por situações constrangedoras. Até a notícia de uma doença não o abalou, decidiu viver!

No fim deste período de readaptação a sua filmadora pode finalmente ser religada. Com vontade e coragem consegue transpor a ponte sobre o vácuo que a distância e o tempo havia criado entre ele e aqueles a quem amava.

Do outro lado da ponte reencontra... a família... os amigos... e o sonho de amor!

Shima
22/11/2009

(*) Esta fase marcou o meu retorno definitivo à Brasília, desde que fui para o Japão em 1990.

segunda-feira, 25 de junho de 2018

JAPÃO – 110 ANOS DA IMIGRAÇÃO NO BRASIL

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Assim como outras culturas e povos trouxeram uma contribuição ímpar para a formação da nação brasileira, a do Japão também enriqueceu este país em pouco mais de um século, através dos seus imigrantes que cruzaram o oceano em busca de novas oportunidades.

Foi somente pelo trajeto do caminho inverso, como ex-dekassegui que foi possível entender as dificuldades daqueles pioneiros orientais no Brasil, quando passamos pelas primeiras dificuldades no Japão vivendo num país antagônico em tantos aspectos, se usarmos o parâmetro brasileiro como base.

A diferença é a época em que ocorreram estas duas aventuras...

Quando os japoneses chegaram ao Brasil no início do século passado,  encontraram um território praticamente inexplorado, com condições de sobrevivência muitas vezes precárias ocasionando mortes por doenças e epidemias devido à falta de assistência médica adequada.

Já na época em que fui para o Japão, na década de 90, os decasséguis encontraram um Japão milenar de primeiro mundo com todas as facilidades e comodidades, tendo acesso aos meios de comunicação, assistência médica e oferta de trabalho além da moradia. A questão de idioma era superada pela existência dos “tantoushas” (intérpretes) que as empresas colocavam à disposição dos brasileiros, o que não ocorreu no passado com os imigrantes japoneses.

O meu avô paterno atuava como curandeiro no interior do Brasil dentro da colônia japonesa, tentando superar as dificuldades e condições precárias. Muitas doenças necessitavam de pequenas intervenções cirúrgicas emergenciais, fazendo dele uma solução para os casos de primeiros socorros. Nesses procedimentos a anestesia inexistia.

As histórias de cada personagem ao longo do século fornece um acervo impressionante de como o povo nipônico contribuiu de forma produtiva no crescimento e expansão da economia brasileira.

Na construção de Brasília no fim da década de 50 e início dos anos 60, verificou-se que era necessário formar o “Cinturão Verde” através de chácaras que pudessem fornecer produtos como hortaliças para os habitantes da futura capital do Brasil. Assim, o presidente JK enviou uma equipe de Brasília para Goiânia em busca de colonos japoneses, já que tudo o que se consumia era importado.

Questionado por dizerem que a terra era ruim (muito árida) e dificilmente se produziria alguma coisa, o representante de Brasília e futuro prefeito da Capital, Israel Pinheiro, disse que se a terra fosse boa não chamaria os japoneses. E assim, um grupo de famílias japonesas veio e venceu o desafio transformando a horticultura num pólo de exportação para outros Estados.

Desta forma, se expandiu pelo Brasil a arte, culinária, música, filosofia, religião, artes marciais e terapias de cura da cultura e tradição japonesa que hoje integram o nosso cotidiano.

110 anos depois é impressionante ver os resultados alcançados por este povo que contribuiu intensamente para o progresso do Brasil.

No último encontro que tive com o amigo Joe Hirata, tomei conhecimento sobre o videoclipe que seria lançado em homenagem aos 110 anos da Imigração japonesa no Brasil...

E é com muita alegria que compartilho aqui este lindo trabalho feito com muito carinho e profissionalismo.


 
 
 
Arigatoh Japão!
Shima.
Namastê.

MINHA PAIXÃO PELA SELEÇÃO DO JAPÃO

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Na vida somos marcados por emoções intensas que quando promovem um sentimento de lealdade acarretam uma força interior muito profunda. E a minha paixão pela Seleção Japonesa tem um motivo muito especial, porque está ligada à minha estadia na terra do sol nascente e a influência do futebol que ocasionou uma das maiores transformações sobre a vida dos decasséguis no Japão.

Antes os brasileiros eram vistos apenas como descendentes de índios da Amazônia... Pensavam que aqui só existia Carnaval e a nudez era um dos nossos hábitos. Era comum nas fábricas, me perguntarem se no Brasil eu usava roupa ou se tinha geladeira, TV... Outras vezes, em encontros de confraternização onde a culinária era o ponto alto, me perguntavam se comíamos só raízes. O absurdo era evidente e só fui compreender porque ocorria quando comecei a prestar mais atenção no que a TV japonesa falava sobre temas brasileiros.

O que também parecia pesar muito negativamente se relacionava às imagens do início do século XX, quando os primeiros imigrantes japoneses se embrenharam nas selvas e fazendas, desbravando o interior do Brasil em busca de melhores condições de vida. Era compreensível a visão parcial que tinham do nosso país e do seu povo. O curioso era também que os decasséguis tinham quase as feições dos nossos índios com olhos puxados. Isso gerou muita confusão sobre a nossa ascendência japonesa.

O Brasil era alvo de interesse devido à peculiaridade da Amazônia e a diversidade dos povos indígenas. Esse era o ponto positivo que via neles, o de aprender sempre.

Quando cheguei ao Japão, em 1990, uma das primeiras cenas que me chamou a atenção foi a dos jogos de futebol que passavam na TV, uma prática esportiva nas fábricas, escolas e universidades. Com todo o meu respeito, era como assistir aos jogos de pelada em campos de terra batida. Se num lance era cômico ver chutões e depois 20 jogadores embaixo esperando a bola descer, noutro ficava impressionado pela velocidade e resistência que eles tinham durante o jogo inteiro.

Nos jogos que fazíamos com times da fábrica em Toyohashi que envolviam ingleses, alemães, japoneses e brasileiros, ficava surpreso com a capacidade que tinham de acreditar que podiam alcançar uma bola considerada perdida (pela distância), mas alcançavam e dominavam a bola. Era como assistir um anime, pareciam ter turbinas nas pernas. Desde então, os japoneses passaram a ter o meu respeito pela disciplina, determinação e dedicação. Eles sempre acreditaram em algo.

Quando o Zico foi para o Japão em 1991 para jogar no time de uma fábrica ao norte do Japão ocasionou um divisor de águas no futebol japonês. De amador se tornaram profissionais. Aprenderam rápido com os jogadores brasileiros que desembarcaram em solo japonês. E o mais belo movimento que ocorreu com a ida do Zico foi a surpreendente descoberta dos japoneses sobre o que era o Brasil.

Assim que se tornou um ídolo no Japão, a vida do jogador Zico despertou um mar de curiosidade e os japoneses queriam saber quem ele era. De onde tinha vindo e como era a sua vida antes de mudar para o Japão. Foi quando surgiram os documentários sobre o Rio de Janeiro, as pessoas e a casa do Zico no Brasil. Viram como era o campeonato brasileiro de futebol e passaram a conhecer as capitais brasileiras e o nosso povo tal como era de verdade.

Tudo mudou, os japoneses ficaram chocados com a realidade do Brasil. Perguntavam se nossa casa era como a do Zico, se nossa cidade era igual a dele e assim por diante. A visão que era limitada se expandiu de forma surpreendente. Os japoneses estavam redescobrindo o Brasil.

De uma visão somente do interior da floresta amazônica passaram a admirar “o novo Brasil” até então desconhecido por eles e ficavam maravilhados com o tamanho de uma casa brasileira que ocupava um espaço muito maior que os arrozais deles. Perceberam a dimensão do Brasil, conheceram a história, cultura e tradição do povo brasileiro.

Os empresários faziam muitas perguntas, questionavam a economia do Brasil e se espantaram ao conhecer a Embraer, a Engesa, a Estação de Lançamento de Alcântara, as indústrias brasileiras, inclusive as automobilísticas que para muitos foi algo chocante. A partir destes fatos, muitos “Shachôs” (presidentes de empresas) passaram a visitar o Brasil junto com seus funcionários brasileiros durante as férias.

O pentacampeonato do Brasil ocorrido na Copa do Mundo no Japão e Coréia em 2002 foi a nossa consagração em solo japonês. Para quem tinha chegado antes da profissionalização do futebol japonês, ver o país sediar uma Copa e observar a sua seleção em crescente desenvolvimento com uma “mãozinha dos brasileiros”, era encantador e consolidava o respeito dos japoneses aos brasileiros, comprovando que não era só nas fábricas que os brasileiros se destacavam. Atualmente, há muitos ex-decasséguis que se tonaram empresários e fundaram suas próprias empresas em solo nipônico.

Se de um lado tenho uma paixão pela Seleção do Japão, do outro tenho um amor imenso pelo Brasil que também é o país onde nasci nesta vida atual...  Tenho orgulho de ser brasileiro.

Gambarê Nihon!
Shima.
Namastê.

segunda-feira, 28 de maio de 2018

ESCALANDO O "FUJI-SAN"

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"Os passos na busca do conhecimento interior,
seguem um único caminho: a linha ascendente!"


O País do "Sol Nascente" possui o seu lado espiritual, místico e cultural além de lindas curiosidades que presenciei e vivi durante minha estadia no pequeno paraíso que considero um "Jardim do Mundo".

O Monte Fuji é considerado o cartão postal do Japão. É comum ter um quadro com a foto ou gravura deste símbolo do Japão, nas residências dos descendentes nipônicos. O Monte Fuji é um lugar sagrado e segundo uma tradição antiga 'todo japonês deve escalá-lo ao menos uma vez na vida'.

O "Fuji-san", como é carinhosamente chamado pelos japoneses, é um vulcão adormecido com 3.776 metros de altitude, cuja última erupção foi no ano de 1707. É o ponto mais elevado do Japão e passa a maior parte do ano coberto de neve. O turismo e a escalada são permitidos somente entre os meses de julho e agosto, durante o verão. A subida ao topo é uma verdadeira aventura de resistência física e psicológica.

Desde criança sentia uma vontade imensa de conhecer o Monte Fuji. Ficava olhando a imagem no quadro que ficava na parede da sala, apreciando a beleza que irradiava. Esse sonho foi possível realizar no feriadão de agosto de 1992, quando um japonês que trabalhava comigo, convidou-me e a um amigo peruano para acompanhá-lo.

Seguindo suas orientações - pois ele já era um veterano na escalada do "Fuji-san" - preparei minha mochila com os itens necessários: cachecol, chapéu, luvas, blusas, lanterna, bolachas, chocolates, água mineral e... uma bandeira do Brasil! 

Saímos numa manhã de sábado e chegamos ao local de subida ao entardecer. Iniciamos a escalada já ao anoitecer pois o nosso plano era alcançar o topo para assistir a beleza do nascer do sol.

O Monte Fuji nos fornece uma visão majestosa, onipotente, desafiadora e, de pronto sentimos até um certo desânimo só de imaginar a escalada, ao olhar para o topo que some entre as nuvens...

Ali, pela primeira vez na vida senti o significado de uma verdadeira peregrinação, era isto o que faria ao subir aquela encosta íngreme que parecia não ter fim.

Para superar os obstáculos e me incentivar a não desistir no meio do caminho, pensei: "Independentemente de qualquer resultado da minha passagem pelo Japão, alcançar a meta nesta noite será o momento mais glorioso pois chegarei ao topo da minha vida neste país e ninguém tirará o gosto desta vitória!".

A primeira parte da subida é plana com um leve aclive, atravessando as matas silvestres da região. Logo em seguida, começa a subida. 

Antes de iniciarmos a caminhada, compramos um bastões de madeira e bolinhos de arroz. O bastão serviria de apoio, pois o terreno lá em cima é muito perigoso e o seu uso é realmente necessário, como  viria a descobrir mais tarde.


Durante toda subida vê-se várias estações para descanso dos turistas e peregrinos e, em cada parada, como lembrança e prova da sua heroica façanha é gravado no seu bastão o nome da estação, a data e a altitude do local.

O bastão que se tornou meu cajado, simbolizando a peregrinação no Monte Fuji.
Já na metade do caminho para o alto do "Fuji-san" via impressionado a quantidade de pessoas que subiam. Eram jovens, velhos e crianças. Um verdadeiro formigueiro humano seguindo a trilha, ziguezagueando a encosta. 

As luzes das lanternas pareciam vagalumes na escuridão, iluminando os rostos cansados pelo esforço da subida. Alguns paravam um pouco ao lado do caminho, outros desistiam... Outros seguiam em frente, um passo de cada vez, num ritmo tão lento que lembrava a procissão dos meus tempos de coroinha.

As horas iam passando, parecendo uma eternidade. Uma dezena de metros que davam a sensação de quilômetros. O meu corpo parecia pesar toneladas, com a respiração ofegante e a cabeça rodopiando. É o efeito da altitude. O ar é rarefeito. Algumas pessoas utilizam bombas de oxigênio. 

Parei um pouco para descansar pois precisava me recuperar, me adaptar à falta de oxigênio. Tentava puxar o pouco de ar que ainda restava em volta. O meu rosto e o meu peito pareciam que iriam estourar, as veias queriam saltar fora da pele. 


Já nem andava mais, na verdade, me arrastava. Usava o bastão para me puxar, senão mal conseguia sair do lugar. Usava as duas mãos para me apoiar nele, caso contrário despencaria ao chão. Olhava ao longe e via apenas as luzes das cidades, lá embaixo, piscando sob as nuvens.

Em cada estação, mais uma etapa vencida. E mais complicada ficava a subida. Agora mais íngreme, com as pedras se soltando e o terreno afundando cada vez mais. É uma terra vulcânica, parecendo uma areia fina que se desmancha, igual à fuligem; quando meus pés a tocavam era como pisar na lama, dificultando ainda mais a caminhada. 

Olhava para cima e via as formiguinhas-vagalumes subindo, calmamente, sumindo aos poucos na escuridão da noite.

Pouco antes da meia-noite resolvemos parar numa estação para oxigenar o corpo. Entramos num amplo salão onde as pessoas pernoitavam e procuramos um lugar para acomodarmo-nos para um cochilo. 

Duas horas depois, com o corpo recuperado do cansaço, continuamos a subida pela madrugada adentro. E após "alguns séculos" nesta interminável escalada, chegamos à penúltima estação. Soprava um vento forte, gelado, o frio congelava os ossos.


Tremia tanto que os dentes batiam uns nos outros como se fossem pica-paus martelando uma árvore. Olhei para cima e vi que ainda faltavam uns 200 metros. Achei praticamente impossível chegar lá em cima: não era mais íngreme, era um paredão!

Meu amigo peruano desistiu ali mesmo. Disse que ia nos esperar do outro lado para a descida. Pegou um atalho e foi embora. Lembrei-me do meu incentivo e mandei ver. Dos 3.776 metros, faltavam, apenas, pouco menos de 200 metros para alcançar a meta. 

"Vou sim, nem que meu amigo japonês tenha que me arrastar, mas vou do jeito que der. Depois de tudo que passei até aqui, não vou morrer na praia não, vou até lá em cima. Ah, se vou!".

E fui... quase morto... mas cheguei!

Assim que pisei no topo do "Fuji-san", vendo a imensa boca do vulcão se abrindo à minha frente, ajoelhei - não sei se de cansaço ou de emoção - e ao olhar para a linha do horizonte tive a mais linda visão que já presenciei. Uma das mais belas obras: o nascer do sol acima daquele maravilhoso tapete de algodão branco!

Fiquei um bom tempo sentado na borda da cratera contemplando aquele espetáculo, sentindo toda a espiritualidade daquele ambiente paradisíaco. 

Uma sensação de alegria indescritível me envolvia. 

A felicidade invadia o meu peito.

Um sonho de criança estava se realizando!

Um forte abraço,
Shima.
(Escrito em 1992)

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