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segunda-feira, 25 de junho de 2018

JAPÃO – 110 ANOS DA IMIGRAÇÃO NO BRASIL

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Assim como outras culturas e povos trouxeram uma contribuição ímpar para a formação da nação brasileira, a do Japão também enriqueceu este país em pouco mais de um século, através dos seus imigrantes que cruzaram o oceano em busca de novas oportunidades.

Foi somente pelo trajeto do caminho inverso, como ex-dekassegui que foi possível entender as dificuldades daqueles pioneiros orientais no Brasil, quando passamos pelas primeiras dificuldades no Japão vivendo num país antagônico em tantos aspectos, se usarmos o parâmetro brasileiro como base.

A diferença é a época em que ocorreram estas duas aventuras...

Quando os japoneses chegaram ao Brasil no início do século passado,  encontraram um território praticamente inexplorado, com condições de sobrevivência muitas vezes precárias ocasionando mortes por doenças e epidemias devido à falta de assistência médica adequada.

Já na época em que fui para o Japão, na década de 90, os decasséguis encontraram um Japão milenar de primeiro mundo com todas as facilidades e comodidades, tendo acesso aos meios de comunicação, assistência médica e oferta de trabalho além da moradia. A questão de idioma era superada pela existência dos “tantoushas” (intérpretes) que as empresas colocavam à disposição dos brasileiros, o que não ocorreu no passado com os imigrantes japoneses.

O meu avô paterno atuava como curandeiro no interior do Brasil dentro da colônia japonesa, tentando superar as dificuldades e condições precárias. Muitas doenças necessitavam de pequenas intervenções cirúrgicas emergenciais, fazendo dele uma solução para os casos de primeiros socorros. Nesses procedimentos a anestesia inexistia.

As histórias de cada personagem ao longo do século fornece um acervo impressionante de como o povo nipônico contribuiu de forma produtiva no crescimento e expansão da economia brasileira.

Na construção de Brasília no fim da década de 50 e início dos anos 60, verificou-se que era necessário formar o “Cinturão Verde” através de chácaras que pudessem fornecer produtos como hortaliças para os habitantes da futura capital do Brasil. Assim, o presidente JK enviou uma equipe de Brasília para Goiânia em busca de colonos japoneses, já que tudo o que se consumia era importado.

Questionado por dizerem que a terra era ruim (muito árida) e dificilmente se produziria alguma coisa, o representante de Brasília e futuro prefeito da Capital, Israel Pinheiro, disse que se a terra fosse boa não chamaria os japoneses. E assim, um grupo de famílias japonesas veio e venceu o desafio transformando a horticultura num pólo de exportação para outros Estados.

Desta forma, se expandiu pelo Brasil a arte, culinária, música, filosofia, religião, artes marciais e terapias de cura da cultura e tradição japonesa que hoje integram o nosso cotidiano.

110 anos depois é impressionante ver os resultados alcançados por este povo que contribuiu intensamente para o progresso do Brasil.

No último encontro que tive com o amigo Joe Hirata, tomei conhecimento sobre o videoclipe que seria lançado em homenagem aos 110 anos da Imigração japonesa no Brasil...

E é com muita alegria que compartilho aqui este lindo trabalho feito com muito carinho e profissionalismo.


 
 
 
Arigatoh Japão!
Shima.
Namastê.

MINHA PAIXÃO PELA SELEÇÃO DO JAPÃO

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Na vida somos marcados por emoções intensas que quando promovem um sentimento de lealdade acarretam uma força interior muito profunda. E a minha paixão pela Seleção Japonesa tem um motivo muito especial, porque está ligada à minha estadia na terra do sol nascente e a influência do futebol que ocasionou uma das maiores transformações sobre a vida dos decasséguis no Japão.

Antes os brasileiros eram vistos apenas como descendentes de índios da Amazônia... Pensavam que aqui só existia Carnaval e a nudez era um dos nossos hábitos. Era comum nas fábricas, me perguntarem se no Brasil eu usava roupa ou se tinha geladeira, TV... Outras vezes, em encontros de confraternização onde a culinária era o ponto alto, me perguntavam se comíamos só raízes. O absurdo era evidente e só fui compreender porque ocorria quando comecei a prestar mais atenção no que a TV japonesa falava sobre temas brasileiros.

O que também parecia pesar muito negativamente se relacionava às imagens do início do século XX, quando os primeiros imigrantes japoneses se embrenharam nas selvas e fazendas, desbravando o interior do Brasil em busca de melhores condições de vida. Era compreensível a visão parcial que tinham do nosso país e do seu povo. O curioso era também que os decasséguis tinham quase as feições dos nossos índios com olhos puxados. Isso gerou muita confusão sobre a nossa ascendência japonesa.

O Brasil era alvo de interesse devido à peculiaridade da Amazônia e a diversidade dos povos indígenas. Esse era o ponto positivo que via neles, o de aprender sempre.

Quando cheguei ao Japão, em 1990, uma das primeiras cenas que me chamou a atenção foi a dos jogos de futebol que passavam na TV, uma prática esportiva nas fábricas, escolas e universidades. Com todo o meu respeito, era como assistir aos jogos de pelada em campos de terra batida. Se num lance era cômico ver chutões e depois 20 jogadores embaixo esperando a bola descer, noutro ficava impressionado pela velocidade e resistência que eles tinham durante o jogo inteiro.

Nos jogos que fazíamos com times da fábrica em Toyohashi que envolviam ingleses, alemães, japoneses e brasileiros, ficava surpreso com a capacidade que tinham de acreditar que podiam alcançar uma bola considerada perdida (pela distância), mas alcançavam e dominavam a bola. Era como assistir um anime, pareciam ter turbinas nas pernas. Desde então, os japoneses passaram a ter o meu respeito pela disciplina, determinação e dedicação. Eles sempre acreditaram em algo.

Quando o Zico foi para o Japão em 1991 para jogar no time de uma fábrica ao norte do Japão ocasionou um divisor de águas no futebol japonês. De amador se tornaram profissionais. Aprenderam rápido com os jogadores brasileiros que desembarcaram em solo japonês. E o mais belo movimento que ocorreu com a ida do Zico foi a surpreendente descoberta dos japoneses sobre o que era o Brasil.

Assim que se tornou um ídolo no Japão, a vida do jogador Zico despertou um mar de curiosidade e os japoneses queriam saber quem ele era. De onde tinha vindo e como era a sua vida antes de mudar para o Japão. Foi quando surgiram os documentários sobre o Rio de Janeiro, as pessoas e a casa do Zico no Brasil. Viram como era o campeonato brasileiro de futebol e passaram a conhecer as capitais brasileiras e o nosso povo tal como era de verdade.

Tudo mudou, os japoneses ficaram chocados com a realidade do Brasil. Perguntavam se nossa casa era como a do Zico, se nossa cidade era igual a dele e assim por diante. A visão que era limitada se expandiu de forma surpreendente. Os japoneses estavam redescobrindo o Brasil.

De uma visão somente do interior da floresta amazônica passaram a admirar “o novo Brasil” até então desconhecido por eles e ficavam maravilhados com o tamanho de uma casa brasileira que ocupava um espaço muito maior que os arrozais deles. Perceberam a dimensão do Brasil, conheceram a história, cultura e tradição do povo brasileiro.

Os empresários faziam muitas perguntas, questionavam a economia do Brasil e se espantaram ao conhecer a Embraer, a Engesa, a Estação de Lançamento de Alcântara, as indústrias brasileiras, inclusive as automobilísticas que para muitos foi algo chocante. A partir destes fatos, muitos “Shachôs” (presidentes de empresas) passaram a visitar o Brasil junto com seus funcionários brasileiros durante as férias.

O pentacampeonato do Brasil ocorrido na Copa do Mundo no Japão e Coréia em 2002 foi a nossa consagração em solo japonês. Para quem tinha chegado antes da profissionalização do futebol japonês, ver o país sediar uma Copa e observar a sua seleção em crescente desenvolvimento com uma “mãozinha dos brasileiros”, era encantador e consolidava o respeito dos japoneses aos brasileiros, comprovando que não era só nas fábricas que os brasileiros se destacavam. Atualmente, há muitos ex-decasséguis que se tonaram empresários e fundaram suas próprias empresas em solo nipônico.

Se de um lado tenho uma paixão pela Seleção do Japão, do outro tenho um amor imenso pelo Brasil que também é o país onde nasci nesta vida atual...  Tenho orgulho de ser brasileiro.

Gambarê Nihon!
Shima.
Namastê.

segunda-feira, 28 de maio de 2018

ESCALANDO O "FUJI-SAN"

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"Os passos na busca do conhecimento interior,
seguem um único caminho: a linha ascendente!"


O País do "Sol Nascente" possui o seu lado espiritual, místico e cultural além de lindas curiosidades que presenciei e vivi durante minha estadia no pequeno paraíso que considero um "Jardim do Mundo".

O Monte Fuji é considerado o cartão postal do Japão. É comum ter um quadro com a foto ou gravura deste símbolo do Japão, nas residências dos descendentes nipônicos. O Monte Fuji é um lugar sagrado e segundo uma tradição antiga 'todo japonês deve escalá-lo ao menos uma vez na vida'.

O "Fuji-san", como é carinhosamente chamado pelos japoneses, é um vulcão adormecido com 3.776 metros de altitude, cuja última erupção foi no ano de 1707. É o ponto mais elevado do Japão e passa a maior parte do ano coberto de neve. O turismo e a escalada são permitidos somente entre os meses de julho e agosto, durante o verão. A subida ao topo é uma verdadeira aventura de resistência física e psicológica.

Desde criança sentia uma vontade imensa de conhecer o Monte Fuji. Ficava olhando a imagem no quadro que ficava na parede da sala, apreciando a beleza que irradiava. Esse sonho foi possível realizar no feriadão de agosto de 1992, quando um japonês que trabalhava comigo, convidou-me e a um amigo peruano para acompanhá-lo.

Seguindo suas orientações - pois ele já era um veterano na escalada do "Fuji-san" - preparei minha mochila com os itens necessários: cachecol, chapéu, luvas, blusas, lanterna, bolachas, chocolates, água mineral e... uma bandeira do Brasil! 

Saímos numa manhã de sábado e chegamos ao local de subida ao entardecer. Iniciamos a escalada já ao anoitecer pois o nosso plano era alcançar o topo para assistir a beleza do nascer do sol.

O Monte Fuji nos fornece uma visão majestosa, onipotente, desafiadora e, de pronto sentimos até um certo desânimo só de imaginar a escalada, ao olhar para o topo que some entre as nuvens...

Ali, pela primeira vez na vida senti o significado de uma verdadeira peregrinação, era isto o que faria ao subir aquela encosta íngreme que parecia não ter fim.

Para superar os obstáculos e me incentivar a não desistir no meio do caminho, pensei: "Independentemente de qualquer resultado da minha passagem pelo Japão, alcançar a meta nesta noite será o momento mais glorioso pois chegarei ao topo da minha vida neste país e ninguém tirará o gosto desta vitória!".

A primeira parte da subida é plana com um leve aclive, atravessando as matas silvestres da região. Logo em seguida, começa a subida. 

Antes de iniciarmos a caminhada, compramos um bastões de madeira e bolinhos de arroz. O bastão serviria de apoio, pois o terreno lá em cima é muito perigoso e o seu uso é realmente necessário, como  viria a descobrir mais tarde.


Durante toda subida vê-se várias estações para descanso dos turistas e peregrinos e, em cada parada, como lembrança e prova da sua heroica façanha é gravado no seu bastão o nome da estação, a data e a altitude do local.

O bastão que se tornou meu cajado, simbolizando a peregrinação no Monte Fuji.
Já na metade do caminho para o alto do "Fuji-san" via impressionado a quantidade de pessoas que subiam. Eram jovens, velhos e crianças. Um verdadeiro formigueiro humano seguindo a trilha, ziguezagueando a encosta. 

As luzes das lanternas pareciam vagalumes na escuridão, iluminando os rostos cansados pelo esforço da subida. Alguns paravam um pouco ao lado do caminho, outros desistiam... Outros seguiam em frente, um passo de cada vez, num ritmo tão lento que lembrava a procissão dos meus tempos de coroinha.

As horas iam passando, parecendo uma eternidade. Uma dezena de metros que davam a sensação de quilômetros. O meu corpo parecia pesar toneladas, com a respiração ofegante e a cabeça rodopiando. É o efeito da altitude. O ar é rarefeito. Algumas pessoas utilizam bombas de oxigênio. 

Parei um pouco para descansar pois precisava me recuperar, me adaptar à falta de oxigênio. Tentava puxar o pouco de ar que ainda restava em volta. O meu rosto e o meu peito pareciam que iriam estourar, as veias queriam saltar fora da pele. 


Já nem andava mais, na verdade, me arrastava. Usava o bastão para me puxar, senão mal conseguia sair do lugar. Usava as duas mãos para me apoiar nele, caso contrário despencaria ao chão. Olhava ao longe e via apenas as luzes das cidades, lá embaixo, piscando sob as nuvens.

Em cada estação, mais uma etapa vencida. E mais complicada ficava a subida. Agora mais íngreme, com as pedras se soltando e o terreno afundando cada vez mais. É uma terra vulcânica, parecendo uma areia fina que se desmancha, igual à fuligem; quando meus pés a tocavam era como pisar na lama, dificultando ainda mais a caminhada. 

Olhava para cima e via as formiguinhas-vagalumes subindo, calmamente, sumindo aos poucos na escuridão da noite.

Pouco antes da meia-noite resolvemos parar numa estação para oxigenar o corpo. Entramos num amplo salão onde as pessoas pernoitavam e procuramos um lugar para acomodarmo-nos para um cochilo. 

Duas horas depois, com o corpo recuperado do cansaço, continuamos a subida pela madrugada adentro. E após "alguns séculos" nesta interminável escalada, chegamos à penúltima estação. Soprava um vento forte, gelado, o frio congelava os ossos.


Tremia tanto que os dentes batiam uns nos outros como se fossem pica-paus martelando uma árvore. Olhei para cima e vi que ainda faltavam uns 200 metros. Achei praticamente impossível chegar lá em cima: não era mais íngreme, era um paredão!

Meu amigo peruano desistiu ali mesmo. Disse que ia nos esperar do outro lado para a descida. Pegou um atalho e foi embora. Lembrei-me do meu incentivo e mandei ver. Dos 3.776 metros, faltavam, apenas, pouco menos de 200 metros para alcançar a meta. 

"Vou sim, nem que meu amigo japonês tenha que me arrastar, mas vou do jeito que der. Depois de tudo que passei até aqui, não vou morrer na praia não, vou até lá em cima. Ah, se vou!".

E fui... quase morto... mas cheguei!

Assim que pisei no topo do "Fuji-san", vendo a imensa boca do vulcão se abrindo à minha frente, ajoelhei - não sei se de cansaço ou de emoção - e ao olhar para a linha do horizonte tive a mais linda visão que já presenciei. Uma das mais belas obras: o nascer do sol acima daquele maravilhoso tapete de algodão branco!

Fiquei um bom tempo sentado na borda da cratera contemplando aquele espetáculo, sentindo toda a espiritualidade daquele ambiente paradisíaco. 

Uma sensação de alegria indescritível me envolvia. 

A felicidade invadia o meu peito.

Um sonho de criança estava se realizando!

Um forte abraço,
Shima.
(Escrito em 1992)

quarta-feira, 9 de maio de 2018

KYUUKEI MAGAZINE

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A minha ida para o Nihon foi em 1990.

Em 1992, a convite da direção da empreiteira da qual era funcionário na fábrica, aceitei o desafio de produzir um Boletim Informativo mensal para ser distribuído aos brasileiros em todo o Japão. Foi o Suri-Emu News.
Foram criados várias editorias abordando as necessidade dos "Dekasseguis" e também aproveitei para dar prosseguimento em um projeto criado em 1990, quando havia me mudado para a cidade de Toyohashi. A criação do Tomodachi Club (Clube de Amigos).

Anos depois, em 2002, criei uma empresa no Japão e publiquei a minha própria revista que se chamou: Kyuukei Magazine e representava o veículo de comunicação do Tomodachi Clube de Toyohashi. A palavra "kyuukei" em japonês significa: intervalo, descanso. Ou seja, nas fábricas a cada duas horas eram concedidos de 10 a 15 minutos de intervalos para descanso e lanche. E foi com este propósito que a revista passou a se chamar Kyuukei. Era para ser lido nestes horários e durante o expediente, promover as reflexões.

Os artigos, textos e fotos produzidas eram para ser absorvidos, lidos e contemplados em 10 minutos apenas.
Com o patrocínios dos amigos empresários e lojistas da cidade, foi possível manter a alta qualidade desta revista e a sua periodicidade que era distribuída gratuitamente para toda a comunidade. Havia 10 mil brasileiros residindo na cidade de Toyohashi.

Num evento ocorrido na Prefeitura da cidade, a revista foi apresentada ao prefeito que se surpreendeu pelo trabalho realizado por mim e nisso, uma semana depois me convidou para integrar como membro, um setor de intercâmbio para estrangeiros da prefeitura.

Após passar por várias experiências empresariais no Japão até o meu retorno definitivo ao Brasil em 2006, terminei a minha peregrinação em solo japonês com a publicação de textos sobre as minhas vivências espirituais no Caminhando com o Mestre que seria transformado num blog e num site de autoconhecimento.

Hoje retomo o Kyuukei Magazine em versão digital com o objetivo de trocar experiências, reunir amigos e contribuir com a comunidade nikkey.

Yoroshiku onegai shimasu!


(*) Quem trabalhou na Kawanishi (Akemi chõ/Toyohashi) nos anos 90 deve se lembrar que em Agosto/1991 foi lançado um informativo dentro da fábrica que se chamava "Kyuukei". 

Na época eu mesmo o digitava numa máquina processadora de texto que como não tinha acentos, os colocava manualmente com uma caneta nanquim. Na época trabalhava no Setor de Injetoras da Hayama que ficava ao lado da Linha A e B da Kawanishi. 

O Kyuukei era impresso e suas cópias distribuídas para todos os brasileiros da fábrica. No começo era apenas um projeto, mas em seguida fui convidado para editar o Suri-Emu News e então o informativo virou uma editoria e se transformou no Tomodachi Clube de Toyohashi nos anos seguintes.


(**) No último trimestre de 1989, depois de quase uma década trabalhando em gráficas, editoras e jornais e ter feito um curso de extensão de Jornalismo Comunitário pela UnB, tomei a decisão de fundar o meu próprio veículo de comunicação, e criei o Jornal Pioneiro na cidade satélite do Núcleo Bandeirante em Brasília, onde residia. Começou a partir daí, a caminhada para a realização dos meus sonhos e ideais. Na época eu era associado da AIDF - Associação de Imprensa do Distrito Federal.

Um projeto foi elaborado de forma bem detalhada com o envolvimento de toda a comunidade daquela cidade, onde o foco principal se baseava na atividade Família-Escola-Comunidade. As crianças daquela época precisavam do apoio total, devido à onda de desestruturação familiar que vinha ocorrendo dentro da sociedade e a violência que invadia os lares junto com as drogas.

Este foi o início dos projetos que desenvolvi lá no Nihon e que hoje dou continuidade principalmente pelo fato de eu estar trabalhando em uma escola municipal de ensino fundamental.

KYUUKEI - INCENTIVANDO O INTERCÂMBIO

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Residi no Japão por quase 16 anos, na cidade de Toyohashi, província de Aichi. A primeira vez que fui ao Japão, as razões eram pessoais e familiares e não financeira. Na segunda estadia, foi espiritual.

Durante a segunda etapa da minha permanência no Japão, seguia a minha rotina como qualquer dekassegui, procurando sempre de alguma forma – além do serviço na fábrica - ser útil para a comunidade brasileira na minha cidade... por isso, participava em diversos eventos.

Foi nessa época – no ano de 2002 -, quando cuidava de uma creche para crianças brasileiras, filipinas e peruanas, que vi a necessidade de criar um veículo de comunicação que pudesse amenizar as dificuldades de comunicação e integração entre japoneses, brasileiros e peruanos.

Nasceu aí... a revista Kyuukei.

Esta foi a minha mensagem para os leitores, quando lancei a revista:

“A cidade de Toyohashi é onde descemos para uma parada temporária. É também o lugar que optamos por morar e trabalhar. Para tornarmos essa estadia agradável, precisamos manter inabalável o motivo original que nos trouxe para esta terra tão distante e concentrarmos em nosso objetivo aqui no Japão.

O Brasil, assim como o resto do mundo, têm seus problemas. Aqui não seria diferente. Devemos isso sim, buscar no nosso dia-a-dia, compreender que vivemos num país que nos dá uma chance de alcançar nossos sonhos. O primeiro passo é cultivar o sentimento de gratidão por aquilo que temos: oportunidade!

Quando isto acontece, a vida fica mais fácil de viver, porque gratidão gera gratidão. Devemos ser gratos por termos um lugar para viver, uma casa para nos abrigar quando voltamos cansados... um cantinho para esticarmos o nosso esqueleto moído pela jornada de trabalho. Sem esse conforto não haveria razão para estarmos aqui.

O Kyuukei busca despertar esse sentimento por uma cidade que nos acolhe, que procura atender nossas necessidades, que embora haja dificuldades de comunicação, vem criando formas de melhorar o intercâmbio entre culturas tão diferentes e que busca facilitar a nossa vida nesta cidade maravilhosa!

O Kyuukei quer mostrar à comunidade japonesa que somos um povo alegre, trabalhador e acima de tudo honesto. Não viemos para causar problemas, mas encontrar soluções para nossas vidas.

O Kyuukei é um espaço que criamos para homenagear a cidade e seus habitantes, mostrar o lado positivo do relacionamento entre as pessoas, da beleza de se curtir uma amizade, e acima de tudo semear o espírito de gratidão entre nós!

(Shima)”

Foi uma das mais lindas experiências que vivi no Japão. E a partir desse trabalho, senti grandes mudanças na minha própria vida. Somados às lições que aprendemos dentro das fábricas, a participação atuante de pessoas na comunidade brasileira, que desenvolvia o sentimento de solidariedade, me fez crescer muito, como um ser humano!

Ernesto Shimabuko​

Foto: Toyohashi Visitors & Convention Association.

O ENCONTRO DE DUAS CULTURAS

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Corria o ano de 1990, a estação de Toyohashi era o ponto de referência. Simples e pequena para uma cidade que sonhava ser grande. Mas era ali que convergiam os brasileiros em busca de contatos e novidades. Os "depatos" (shoppings) eram seus refúgios nos finais de semana. Os japoneses ainda olhavam desconfiados, mas existia aquilo que era latente em todos os seres humanos: a curiosidade.

Quem eram aquelas pessoas que pareciam ser japoneses, mas falavam um idioma diferente? Quando andavam nas ruas, os brasileiros eram identificados imediatamente, pois usavam "calça jeans". Em volta, em quase todos os lugares, os japoneses andavam com roupas sociais, sempre rigorosos no trajar.

Nos parques, aos domingos era comum observar o homem japonês andar na frente da mulher quase 2 metros adiante e ela acompanhando cerimoniosamente com o filho no colo.

Falar do Brasil nas fábricas para os japoneses era um tanto complicado. Onde ficava?! Os poucos que conheciam a palavra "Burajiru" (Brazil), achavam que neste país existia somente "samba, carnaval, índios e floresta".

O movimento dekassegui naquela época, no início da década de 90, era marcado por episódios particulares onde somente o marido ía ao Japão. Depois que conseguisse se estabilizar na fábrica e arrumasse um lugar para morar, levava a família. Eles tinham o objetivo de ficar cerca de dois, três anos e, se economizassem o suficiente, conseguiriam investir no Brasil. Assim era a rotina dos dekasseguis.

O estouro da "bolha" econômica naquela época não causava nenhuma preocupação. O mercado de mão de obra para os brasileiros ainda era disputadíssimo. Empresas que não tivessem brasileiros em suas linhas de produção ficavam para trás.

A produção de cada brasileiro em relação ao japonês era no mínimo o dobro e, em muitos casos, até sete vezes mais. Enchia de orgulho saber que muitas empresas de "fundo de quintal" na época, estavam crescendo rapidamente por causa dos brasileiros. Ganhava-se em um ano de trabalho no Japão, o que se levaria dez anos de trabalho no Brasil.

Muitos lojistas japoneses, perceberam este novo filão de consumidores e rapidamente abriram as portas para atendê-los. Outros tiveram que passar pelo revés de ter de chamar de volta os brasileiros, quando por discriminação os impediram de entrar em seus estabelecimentos. Bastaram 30 dias, na hora de fazer o balanço para sentir a diferença. Eram aqueles "gaijins" (estrangeiros) que vinham aquecendo as vendas.

Também pudera... Os brasileiros entravam nas lojas, não pechinchavam, pagavam à vista produtos de 150, 200 mil yenes e ainda carregavam nas costas até suas casas. Em compras de 100 yen era comum ver brasileiros pagando com notas de 10 mil.

Matar a saudade da feijoada, do guaraná Antarctica, cerveja Brahma, salame, era ficar aguardando os parentes e amigos que chegavam do Brasil trazendo estas delícias dentro das bagagens.

Revistas e jornais mesmo sendo do mês anterior eram devoradas em poucos minutos, passando de mão em mão. Somente em meados daquele ano é que surgiu em Toyohashi a primeira loja que comercializava produtos brasileiros.

Era uma adega japonesa, onde se vendia apenas bebidas. Chamava-se "Takehana", localizada no bairro de Higashi Miyuki, lá pelos lados do Akebono. Os preços eram "salgados", mas valia a pena.

Matá né!

Shima.


Tomodachi Club 

https://www.facebook.com/groups/ToyohashiTomodachiClub/

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