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segunda-feira, 25 de junho de 2018

MINHA PAIXÃO PELA SELEÇÃO DO JAPÃO


Na vida somos marcados por emoções intensas que quando promovem um sentimento de lealdade acarretam uma força interior muito profunda. E a minha paixão pela Seleção Japonesa tem um motivo muito especial, porque está ligada à minha estadia na terra do sol nascente e a influência do futebol que ocasionou uma das maiores transformações sobre a vida dos decasséguis no Japão.

Antes os brasileiros eram vistos apenas como descendentes de índios da Amazônia... Pensavam que aqui só existia Carnaval e a nudez era um dos nossos hábitos. Era comum nas fábricas, me perguntarem se no Brasil eu usava roupa ou se tinha geladeira, TV... Outras vezes, em encontros de confraternização onde a culinária era o ponto alto, me perguntavam se comíamos só raízes. O absurdo era evidente e só fui compreender porque ocorria quando comecei a prestar mais atenção no que a TV japonesa falava sobre temas brasileiros.

O que também parecia pesar muito negativamente se relacionava às imagens do início do século XX, quando os primeiros imigrantes japoneses se embrenharam nas selvas e fazendas, desbravando o interior do Brasil em busca de melhores condições de vida. Era compreensível a visão parcial que tinham do nosso país e do seu povo. O curioso era também que os decasséguis tinham quase as feições dos nossos índios com olhos puxados. Isso gerou muita confusão sobre a nossa ascendência japonesa.

O Brasil era alvo de interesse devido à peculiaridade da Amazônia e a diversidade dos povos indígenas. Esse era o ponto positivo que via neles, o de aprender sempre.

Quando cheguei ao Japão, em 1990, uma das primeiras cenas que me chamou a atenção foi a dos jogos de futebol que passavam na TV, uma prática esportiva nas fábricas, escolas e universidades. Com todo o meu respeito, era como assistir aos jogos de pelada em campos de terra batida. Se num lance era cômico ver chutões e depois 20 jogadores embaixo esperando a bola descer, noutro ficava impressionado pela velocidade e resistência que eles tinham durante o jogo inteiro.

Nos jogos que fazíamos com times da fábrica em Toyohashi que envolviam ingleses, alemães, japoneses e brasileiros, ficava surpreso com a capacidade que tinham de acreditar que podiam alcançar uma bola considerada perdida (pela distância), mas alcançavam e dominavam a bola. Era como assistir um anime, pareciam ter turbinas nas pernas. Desde então, os japoneses passaram a ter o meu respeito pela disciplina, determinação e dedicação. Eles sempre acreditaram em algo.

Quando o Zico foi para o Japão em 1991 para jogar no time de uma fábrica ao norte do Japão ocasionou um divisor de águas no futebol japonês. De amador se tornaram profissionais. Aprenderam rápido com os jogadores brasileiros que desembarcaram em solo japonês. E o mais belo movimento que ocorreu com a ida do Zico foi a surpreendente descoberta dos japoneses sobre o que era o Brasil.

Assim que se tornou um ídolo no Japão, a vida do jogador Zico despertou um mar de curiosidade e os japoneses queriam saber quem ele era. De onde tinha vindo e como era a sua vida antes de mudar para o Japão. Foi quando surgiram os documentários sobre o Rio de Janeiro, as pessoas e a casa do Zico no Brasil. Viram como era o campeonato brasileiro de futebol e passaram a conhecer as capitais brasileiras e o nosso povo tal como era de verdade.

Tudo mudou, os japoneses ficaram chocados com a realidade do Brasil. Perguntavam se nossa casa era como a do Zico, se nossa cidade era igual a dele e assim por diante. A visão que era limitada se expandiu de forma surpreendente. Os japoneses estavam redescobrindo o Brasil.

De uma visão somente do interior da floresta amazônica passaram a admirar “o novo Brasil” até então desconhecido por eles e ficavam maravilhados com o tamanho de uma casa brasileira que ocupava um espaço muito maior que os arrozais deles. Perceberam a dimensão do Brasil, conheceram a história, cultura e tradição do povo brasileiro.

Os empresários faziam muitas perguntas, questionavam a economia do Brasil e se espantaram ao conhecer a Embraer, a Engesa, a Estação de Lançamento de Alcântara, as indústrias brasileiras, inclusive as automobilísticas que para muitos foi algo chocante. A partir destes fatos, muitos “Shachôs” (presidentes de empresas) passaram a visitar o Brasil junto com seus funcionários brasileiros durante as férias.

O pentacampeonato do Brasil ocorrido na Copa do Mundo no Japão e Coréia em 2002 foi a nossa consagração em solo japonês. Para quem tinha chegado antes da profissionalização do futebol japonês, ver o país sediar uma Copa e observar a sua seleção em crescente desenvolvimento com uma “mãozinha dos brasileiros”, era encantador e consolidava o respeito dos japoneses aos brasileiros, comprovando que não era só nas fábricas que os brasileiros se destacavam. Atualmente, há muitos ex-decasséguis que se tonaram empresários e fundaram suas próprias empresas em solo nipônico.

Se de um lado tenho uma paixão pela Seleção do Japão, do outro tenho um amor imenso pelo Brasil que também é o país onde nasci nesta vida atual...  Tenho orgulho de ser brasileiro.

Gambarê Nihon!
Shima.
Namastê.

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