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quinta-feira, 27 de junho de 2019

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A SÍNDROME DA VOLTA



Uma situação muito conhecida dentro da comunidade nipônica é a "síndrome do dekassegui", após longos anos trabalhando no Japão e que na volta encontra uma série de dificuldades na sua readaptação em solo brasileiro.

Este acontecimento em si acarreta consequências de complexidades múltiplas porque envolve o lado emocional, psicológico e mental da pessoa que retorna ao convívio familiar.

Sente que os laços afetivos sofreram profundas mudanças e o meio em que vivia anteriormente no Brasil encontra-se totalmente transformado. Este novo quadro que surge diante dos olhos choca de imediato.

Sem o apoio familiar - que não percebe o choque -, o dekassegui entra num processo de conflito interior que se não for detectado a tempo pode levar o indivíduo ao estado de desequilíbrio psico-emocional.

O fato de se sentir "fora do ar", entra muitas vezes em pânico a qualquer sinal de desconforto que ocasiona uma insegurança. Começa a sentir saudades do Japão e da "segurança" de lá que está cristalizada em sua mente.

A história que se repete todo ano é mais ou menos parecida com as imagens gravadas numa filmadora, quando algum membro da família vai partir para um outro país e resolve gravar parte da sua vida antes da viagem.

Encontros com amigos, festas com familiares, passeios pelos lugares preferidos, a cidade, o bairro, a rua, a vizinhança, os colegas de trabalho. Vai gravando tudo para poder matar a saudade quando estiver longe de casa.

No dia da viagem registra tudo na filmadora. Cada abraço, cada beijo é gravado com carinho. Lágrimas e sorrisos. Despedida marcada pela emoção. Promessas e juras. O compromisso da volta e a certeza da vitória.

Na hora de embarcar a filmadora é desligada. As imagens serão levadas juntas como únicos tesouros. Lembranças daqueles que ama. Colírio para os olhos marejados e um bálsamo para aliviar a ausência de entes queridos.

Por anos fica na expectativa da volta, ansiando contar tudo o que viu e viveu. Guarda cada momento para poder relatar com detalhes. Alegrias e tristezas, marcadas a "ferro e fogo" num país cheio de contrastes.

Chega o dia de voltar para casa. Deixa atrás de si um longo rastro vivido num país que no início pareceu estranho e bizarro, mas que depois tornou-se a sua segunda casa. Um lugar para se guardar no álbum de recordações.

Habituou-se à sua gente, com o seu modo de vida, tradição milenar, uma sociedade de primeiro mundo, com alta tecnologia. Fez novos amigos. Criou laços afetivos que trarão uma nova dor. A da partida, novamente.

Mas tem que partir. Voltar ao antigo lar. E com lágrimas e sorrisos faz a viagem de volta esperando rever todos os entes queridos e os "velhos" amigos. Guarda ainda na lembrança aquele dia em que partiu para o Japão.

Atravessa metade do planeta ansioso pelo reenconro. A saudade batendo forte no peito. Desembarca no aeroporto de São Paulo. A emoção da volta o domina, mas fica aquele vazio: "Onde estão todos?!"

Em seu subconsciente grava cada instante. O tempo nublado, frio e úmido. O vento gelado faz o seu corpo tremer. Seus ossos chacoalham. Faz esforço para manter as pernas firmes. Sua memória viaja no tempo. Passaram-se dezesseis anos!

Antes, várias tentativas para o retorno já haviam sido feitas em vão. Sempre a mesma imposição: "É melhor você ficar aí no Japão, aqui no Brasil está ruim!". A única vez que conseguiu voltar ao país de origem, ficou um ano e meio.

Sentia-se cansado dos longos anos vivendo num país longínquo e, com a idade de meio século queria recomeçar uma nova vida em sua terra natal. A aposentadoria era uma de suas principais preocupações.

Durante três anos, enfrentou desafios, conflitos e decepções. Superou a crise de identidade que abateu muitos dekasseguis que retornaram ao Brasil. Passou por situações constrangedoras. Até a notícia de uma doença não o abalou, decidiu viver!

No fim deste período de readaptação a sua filmadora pode finalmente ser religada. Com vontade e coragem consegue transpor a ponte sobre o vácuo que a distância e o tempo havia criado entre ele e aqueles a quem amava.

Do outro lado da ponte reencontra... a família... os amigos... e o sonho de amor!

Shima
22/11/2009

(*) Esta fase marcou o meu retorno definitivo à Brasília, desde que fui para o Japão em 1990.

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