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sábado, 28 de setembro de 2019

A Decisão de Viajar - Parte III

Foto: IStock.

07/02/1990

Olho mais uma vez pela janela do avião.


A cidade vai desaparecendo por entre as nuvens. Apenas as luzes ficam piscando lá embaixo enquanto o avião ganha altitude. Ao fazer a curva para pegar a rota de São Paulo, observo a cidade onde vivi meus últimos 30 anos.

Pouco a pouco a minha visão vai sendo encoberta pela escuridão da noite. Respiro fundo e acendo um cigarro. Enquanto a fumaça vai se dissolvendo diante dos meus olhos, os meus pensamentos viajam no tempo e aterrissam no quarto da minha mãe.

- Meu filho, você vai ter que ir para o Japão!

A voz dela soava tranquila e serena. Ela sabia o que me pedia e a dor que isto me causaria. E tentou me convencer.

- Filho, é melhor para você. Aqui você está sofrendo muito. Lá, vai ter paz, vai ter sossego.

- Por que eu?! – disse quase assustado - Eu não quero ir!

- Vá, meu filho, lá você conseguirá refazer a tua vida.

- Mãe – já desesperado – E os meus filhos?! Como vou viver sem eles?! O que será dessas crianças! Das minhas crianças?!

- Não se preocupe, nós vamos cuidar delas...

- Não sei não... Nunca passei um dia sem elas, e eles são a minha vida... São tudo para mim! Nem quero pensar.

As recordações pipocavam como flashes na minha mente. Cada momento vivido com carinho, com amor. Minhas crianças - um filho e três filhas - todos pequenos. Uma longa história cheia de dramas, mas uma vida repleta de alegrias.


O fato de ter que deixar os meus pequenos tesouros, já era um martírio. Ficar longe deles do outro lado do planeta, impossibilitaria de estar por perto em qualquer necessidade. Só este pensamento, já me arrasava!

- Não mãe, não vou. Está resolvido – falei firme olhando nos olhos – Não vou deixar meus filhos, porque agora sou eu que não vou suportar a ausência deles. Vamos encontrar outro jeito de resolver isto.

Ela me olhou de forma estranha vendo que não conseguiria me convencer a viajar. Estava resoluto e não aceitaria que me separassem dos meus filhos. Então, começou a criar uma nova situação para me pressionar a mudar de ideia, argumentando uma série de constrangimentos que a família teria que passar se eu não fosse para o Japão.

- O teu pai está doente lá e não podemos pedir para algum parente ir buscá-lo, sabendo que temos uma família grande aqui em Brasília – disse ela – O que vão pensar de nós?

- Então me diga, por que eu?!  Porque não, outra pessoa? – perguntei já ficando nervoso.

- Porque você é o “chonan”. E cabe a você ir lá, representando a nossa família! – respondeu secamente.

- E se eu não for? – comecei a me irritar.

- Todas as famílias japonesas estão mandando alguém para o Japão – justificou - E sabe o que dizem? Sabe o que estão falando em todos os lugares? – perguntou de forma fulminante.

- Não. Não sei. – E nem queria saber. Já imaginava o que ela estava pensando.

- Todos falam que se alguém não quer ir para o Japão é porque está doente ou é vagabundo! – E a voz soou como uma provocação.

- Olha mãe – argumentei – eu tenho as minhas empresas aqui. E, eu ganho dez vezes mais do que vou receber lá no Japão, trabalhando em fábrica.

- Mas você agora tem problemas, sabe disso, porque ela vai destruir tudo o que você tem – Rebateu a minha mãe.

- Quanto a isso eu sei como resolver. É o que mais venho fazendo nos últimos anos, e ainda estou de pé – respondi.

- Tudo bem. Agora, onde é que você vai morar? Aqui você não pode ficar. Tem que arrumar outro lugar, porque ela está fazendo muito escândalo e envergonhando a nossa família – questionou.

- Mesmo que eu tenha sido roubado, vou conseguir arrumar dinheiro para alugar um quarto. Então eu saio daqui. Vou para um lugar mais longe, onde ela não possa me encontrar – disse meio desapontado com o rumo da conversa.

- Já conversei com seus irmãos e eles disseram para você não se preocupar que todos vão cuidar dos seus filhos – disse tentando forçar mais a barra.

- E por que não um deles? – Disparei essa para ela.

- Por que todos estão trabalhando no serviço público. Não podem sair do emprego! – Disse firme a minha mãe.

- E eu posso largar minhas empresas sem mais, nem menos. É isso o que está me dizendo? – fuzilei.

- Sim. É isso. Você vai ter que ir! Se alguma coisa acontecer com teu pai, a família não vai te perdoar – sentenciou.

- Então é sempre assim? Esqueceu o que me fizeram para que assumisse a falência da fábrica do pai? – disse revoltado.

Ela não me respondeu.

Percebi naquele momento que tudo o que fizesse para não ir ao Japão, traria ainda mais danos. Não tinha como justificar uma atitude que contrariasse a vontade dela. Ela já tinha decidido e tudo devia seguir como queria. 


Na época sentia como se a minha vida realmente não valesse um tostão furado, me sentia a ovelha negra da família. Era o sentimento que carregava desde a infância.

Depois, fui para o meu quarto e comecei a separar as coisas que teria que levar na viagem.



Em Luz e Amor,
Shima.

... continua...


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