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sábado, 19 de outubro de 2019

O Início da Jornada - Parte VI

Vista Co. Ltd - Primeira fábrica que trabalhei no Japão.

12/03/1990

Bem cedo, fui acordado para o café da manhã. Sonolento, rolava de um lado para outro tentando despertar o corpo e me aquecer, parecia estar dentro de uma câmara frigorífica. O fato de ter muitas pessoas juntas, auxiliava o pequeno aquecedor que não dava conta de aquecer o ambiente. Feito o desjejum descemos para o escritório da empreiteira que ficava no térreo do prédio. Chegando lá, nos acomodamos nas poltronas enquanto aguardávamos a chamada para a entrevista individual.

A pessoa que falava bem o nihongô era selecionada para empresas melhores e mais exigentes. Na minha vez, acompanhado do meu pai que foi meu intérprete, caracterizando a minha total ignorância no idioma japonês. Após verificarem as vagas disponíveis, acharam uma empresa em Shiraoka, cidade que ficava na província de Saitama. Após preencher os formulários do contrato, assinar a confissão da dívida referente às passagens de ida e volta e ter o meu passaporte retido como uma espécie de garantia, fui encaminhado para o grupo que seria levado para outra cidade. 


Me apresentaram a um japonês que seria o meu responsável e encarregado de cuidar de tudo relacionado ao meu trabalho na fábrica, de resolver as necessidades básicas no que se referisse às informações da minha estadia no Japão, providenciar documentações, pagamentos de contas, assuntos sobre a convivência no alojamento e os relacionamentos com a vizinhança.

Rapidamente entramos na van e voltamos pelo mesmo caminho do dia anterior, atravessando o centro de Tokyo e pegando uma rodovia expressa que seguia em direção ao norte do país. Dentro do veículo iam apenas cinco pessoas. O motorista, o encarregado, meu pai, eu e aquele rapaz que conseguira a vaga lá de Brasília. A empreiteira selecionou apenas nós dois para a fábrica de Shiraoka. O meu pai não conseguiu nenhuma vaga devido a sua idade, embora dominasse o idioma japonês e, estava indo junto como meu acompanhante, sendo permitido apenas pernoitar comigo, já que ele garantiu que voltaria para Toyohashi no dia seguinte.

Durante a viagem ficava admirado com as ótimas condições das pistas e a estrutura da rodovia, inclusive quando atravessamos uma das pontes do rio Edo, a engenharia chamou-me a atenção. Eram todas de ferro e aço. Desde a nossa saída de Yokohama, não havia espaço entre uma cidade e outra, todas eram contínuas até chegar a Saitama. O planalto de Kanto totalmente tomado pelas cidades ía até os paredões montanhosos na linha do horizonte, cobertos de neve. A vista era maravilhosa, principalmente para um turista que sonhava um dia conhecer o Japão.

Ao chegarmos a Shiraoka fomos levados direto para o alojamento, que na verdade era uma daquelas casas antigas que vi ao longo da rodovia. Tivemos apenas o tempo de deixar as bagagens e entrar de novo na van. O meu pai ficou no alojamento enquanto seguimos o nosso destino, pois o dono da fábrica estava nos aguardando para a apresentação e para fazer uma nova entrevista. Era perto, levamos cerca de 10 minutos de carro até lá. Era em outro bairro, chamado Shimoozaki e parecia um setor de indústrias. 

A impressão que tive ao ver a fábrica do lado de fora, deixou-me muito curioso devido ao formato da sua construção. As paredes pareciam feitas de telhados ondulados. Era um galpão não muito grande e eu diria que era uma pequena empresa, quase de porte médio, não mais que isso. Esta conclusão baseava-se nas várias indústrias que avistei no percurso até chegar ali. 

A recepção do dono da fábrica me surpreendeu. Cumprimentou-nos efusivamente demonstrando ser um homem dinâmico e persuasivo. De estatura média, pouco acima do meu ombro, cabelos pretos ao estilo tradicional, vestindo o uniforme branco da Honda. Possuía um olhar bem inquisidor e um rosto tão jovial quanto alegre. Aparentava uma idade entre 45 e 50 anos. Seus gestos eram gentis demonstrando ter uma formação familiar bem tradicional. Confesso que me simpatizei logo de cara.

Ele nos convidou para entrar no escritório onde nos apresentou ao gerente e, em seguida, pediu-nos para sentar indicando as poltronas em volta de uma mesa baixa. Novamente me surpreendi com a forma como somos recepcionados. Ficamos sentados de frente para a entrada numa posição privilegiada. Estranhei, pois ele era o dono da fábrica. 

Trouxeram chá verde e umas toalhas pequenas enroladas, para limpar as mãos e o rosto. Logo em seguida o encarregado da empreiteira nos entregou as fichas e fez as apresentações. Eu apenas abaixei a cabeça em sinal de respeito sem saber o que dizer ou como responder algumas perguntas que ele fez. Compreensivo e atencioso deixava-nos muito à vontade em sua presença. Conforme ia explicando as condições e as regras da empresa, o encarregado ia traduzindo, inclusive as perguntas e dúvidas que tínhamos durante a entrevista. Em seguida levantou-se e nos convidou para conhecer as instalações da fábrica.

Ao entrarmos no galpão senti meu corpo petrificar, me assustei quando comecei a ver o ambiente lá dentro. O contraste entre o uniforme do patrão e do pessoal que trabalhava nas máquinas era assustador. Parecia marrom ou camuflado de preto, tal era a quantidade de óleo e graxa espalhados, inclusive nas paredes. Enquanto o patrão ia explicando o tipo de serviço que faziam ali – solda de escapamentos –, pude perceber que o pessoal usava grossas luvas com duas camadas para não se queimar. Mostrou-nos a seção de robôs que soldavam as peças, do lado direito do corredor central e fiquei feliz em conhecer aquelas máquinas pessoalmente, pois só as tinha visto através de ilustrações. 

Era impressionante a precisão e a velocidade daqueles robôs. Agora conseguia entender o motivo da produtividade japonesa. Quando nos mostrou o setor de prensa, fiquei arrepiado. Imaginei uma pessoa sendo esmagada naquela pressão de toneladas de força. Já tinha conhecimento de acidentes com esse tipo de trabalho. Rezei para não ser escalado para trabalhar naquele local e continuamos o restante da visita conhecendo o pessoal. Entre os japoneses – umas duas dezenas deles - contei quatro brasileiros e um paraguaio.

Retornamos para o escritório pois o dono da fábrica queria saber se tínhamos gostado da empresa e do serviço. Fui sincero e disse que só poderia dizer quando estivesse fazendo, pois nunca tinha trabalhado nesta área. Faria um esforço para aprender. Pelo jeito ele gostou e disse que ficaria comigo e com o meu companheiro que veio junto. 

Antes de encerrar a entrevista, o dono da fábrica perguntou ao encarregado da empreiteira (tantousha), como tinha sido resolvida a questão da nossa dívida das passagens. Informado das condições de pagamento, ele imediatamente questionou a questão da passagem de volta, porque ele disse que a gente não ia retornar, então porque iam cobrar por um serviço que não usaríamos. O encarregado ficou sem graça e tentou argumentar, mas o patrão não concordou com essa atitude. No fim da discussão, o patrão virou para o nosso encarregado e pediu para avisar à empreiteira que era ele quem iria pagar as nossas dívidas das passagens e, em contrapartida só iria nos cobrar a passagem de ida. E encerrou o assunto. Ficou acertado que começaríamos a trabalhar no dia seguinte e nos entregaram os uniformes e calçados especiais com ponta de ferro. Despedimo-nos dele, e voltamos ao alojamento.

Quando chegamos no alojamento, o “tantousha” nos chamou na sala e apresentou as condições do contrato de trabalho. O salário seria de oito mil ienes por dia e, se necessário devíamos cumprir as horas extras quando a fábrica precisasse. A semana de trabalho seria de segunda a sábado, com folga aos domingos. Como fomos contratados diretos pela fábrica, então a empreiteira ficaria responsável apenas pela prestação de serviços burocráticos e de auxílio em nossa estadia no Japão, cuidando dos trâmites legais junto à imigração, prefeitura e os serviços públicos. Ficariam com os nossos passaportes até a quitação da passagem, quando então os devolveriam para nós. O tantousha deixou seu cartão de visitas com cada um e nos instruiu para avisá-lo sobre qualquer problema que ocorresse tanto na fábrica quanto no alojamento. Como já era o horário do almoço, pegamos o meu pai e fomos almoçar num restaurante.


À tarde, fui conhecer melhor o alojamento. Penúltima casa do lado direito da rua, com um estilo muito convencional em relação às construções mais modernas, ficava no bairro chamado Shinozu. Atrás do conjunto de oito casas existia um campo de golfe, todo coberto e cercada por uma tela verde. Era um local tranquilo cercado de arrozais e bem afastado do centro da cidade, não encontramos um restaurante nas proximidades e o comércio praticamente inexistia. Havia algumas bicicletas no fundo da casa e o encarregado falou que podíamos pegar uma. Escolhi a magrela preta. Seria o meu transporte para o trabalho e lazer. 


Primeira casa que morei no Japão, na foto acima, é a primeira do lado direito.

Além de nós, havia mais um brasileiro que residia no alojamento. A entrada ficava do lado de trás. Havia uma sala, cozinha, ofurô e um quarto. Ao ver o local de fazer as necessidades fisiológicas – no Japão o local de banho é separado - fiquei decepcionado, porque além de ficar junto do quarto, era do tipo fossa com piso de madeira e um buraco aberto no centro. Ao olhar para dentro daquele quadrado negro, eu vi um monte de vermes brancos se mexendo lá no fundo. Saí dali querendo vomitar com o cheiro desagradável. Por este motivo, escolhi o meu canto bem perto da porta corrediça que dava para a varanda. 

Enquanto apreciava um chá verde com o meu pai, continuamos a conversa da noite anterior, queria saber a possibilidade de ele retornar para o Brasil em seis meses, pois foi esse o tempo que tinha planejado ficar no Japão, inclusive tinha combinado com o meu irmão. Antes não seria possível, pois tinha negociado para pagar as passagens em cinco parcelas. E depois eu tinha o compromisso com meu sócio que ficou cuidando das duas empresas que deixei em Brasília. 

Meu pai ficou pensativo analisando a situação que também tinha um compromisso a ser resolvido em Okinawa, relacionado aos antepassados. Explicou-me que não havia concluído os trabalhos e que precisaria de mais tempo, senão teria que retornar depois se voltasse antes para o Brasil. Por isso, estava em Toyohashi trabalhando para poder se sustentar no Japão. Lá em Okinawa não tinha serviço e, como morava com parentes, a situação era complicada e constrangedora. Entendi a posição dele e concordei em aguardar o tempo que ele achasse necessário. Enquanto isso, pedi ao meu pai que me arrumasse um emprego na cidade onde ele estava morando para poder ir para lá futuramente. 


Os assuntos das nossas conversas começaram a ir de um tema para outro. Ele contava as experiências que teve no período em que estava no Japão, da história de Okinawa e, depois sobre a convivência com os japoneses. Estava empregado em uma empreiteira que levava os brasileiros, e o serviço dele era fazer traduções dos documentos para a obtenção de vistos, cuidando inclusive dos trâmites legais junto ao Departamento de Imigração japonesa. Fiquei feliz por ele estar bem e fazendo o que sempre gostou de fazer, porque no Brasil ele dava com certa frequência, aulas de idioma japonês em casa. 


No meu caso, devido às circunstâncias de trabalho, não conseguia fazer os cursos que ele promovia. O fato de não saber nada do nihongô, devia-se ao fato de que em casa, a minha mãe e o meu pai ou quando meus avós iam para Brasília, falavam apenas o idioma de Okinawa.


Pouco antes de nos recolhermos para dormir o meu pai perguntou se eu tinha dinheiro para passar o mês e foi aí que me lembrei de que nem deu tempo para trocar os dólares que, aliás, eu nem sabia onde e nem como fazer o câmbio. Como ele tinha uns 50 mil ienes, repassei para ele os quase 700 dólares que carregava comigo. Segundo ele, esses ienes dariam para a minha despesa até receber o salário da fábrica. Minutos depois, peguei no sono...


Em Luz e Amor,
Shima.

... continua...

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