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quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Aeroporto de Guarulhos, SP - O Embarque - Parte IV

Foto: Ruairidh MacVeigh
09/03/1990

Andando pelo saguão em direção à área de embarque internacional, procurava ver se avistava o pessoal da agência de viagens. Combinaram o encontro em frente à alfândega. Os clientes desta empresa seriam identificados pela logomarca em suas bagagens. Enquanto caminhava empurrando o meu carrinho, observava o meu cunhado que veio comigo de Brasília, apenas para confirmar se eu embarcaria mesmo para o Japão.

- Olha, se você quiser voltar daqui não tem problema, o pessoal já está ali adiante. Eu posso me virar sozinho agora! – disse para ele, desejando que concordasse com a minha proposta.

- Tá louco cara - disse ele - sua mãe me mandou aqui para colocar você lá dentro! – e apontou para a alfândega. – E só vou depois que você atravessar aquele portão! – e deu uma risada para mim.

Sem graça, abaixei a cabeça e continuei em direção ao grupo que estava reunido em volta de um homem que parecia ser o da agência que me enviaria para o outro lado do planeta. Olhei para o relógio do corredor e já passavam das 23 horas. O voo seria após à meia noite.

Devia ter chegado a São Paulo por volta das 19 horas, mas a falta de aviões para fazer esta ponte aérea atrasou a minha saída. Só conseguimos embarcar em um avião porque literalmente invadimos junto com os outros passageiros, enquanto estava estacionado na pista do aeroporto de Brasília. A confusão foi séria e teve até briga. No fundo eu me sentia contrariado com esta viagem sem saber o motivo. Apenas sentia.

- Você é o Ernesto? – perguntou o homem sorrindo, vestido de um terno azul marinho escuro, enquanto conferia o meu sobrenome na lista dele.

Era um grupo de apenas seis pessoas que iria viajar por essa agência, uma dessas conseguira a vaga porque tinha havido uma desistência lá em Brasília. No meu caso, estava embarcando devido ao cancelamento de uma passagem também. A minha viagem para o Japão estava marcada para o dia 24, cerca de duas semanas depois. Como tinha que ir mesmo, aceitei antecipar quando me ligaram da agência.

Confirmada a presença de todos seguimos logo para fazer o check-in e despachar as bagagens. Perguntado se eu fumava, afirmei que sim. Colocaram-me na ala de fumantes. Pouco depois, estávamos a caminho do “matadouro”. Era essa a minha sensação. Como se estivesse indo para o abate. Ao me aproximar do balcão da alfândega, senti um pequeno mal estar. Queria desistir. Virei para trás e vi o meu cunhado e, ele com os gestos de sua mão, dizia para seguir em frente... Resignado entrei na fila.

- Senhor Ernesto? – Perguntou o policial olhando bem nos meus olhos, enquanto segurava o meu passaporte aberto.

- Sim, sou eu. – Afirmei.

- O senhor está indo trabalhar no Japão? – A pergunta foi seca e firme, mas percebi os olhos de dois agentes fixados nos meus.

Nos últimos meses a notícia de que os brasileiros estavam sendo aliciados para irem trabalhar no Japão, através de empresas controladas pela máfia japonesa, alertou o governo e a polícia federal estava coibindo essas viagens, impedindo o embarque dos descendentes nipônicos, sempre que conseguiam comprovar este objetivo através de acareações diretas. Qualquer nervosismo ou resposta vacilante que levantasse suspeita, o passageiro era imediatamente retirado da fila e ia para uma sala atrás da alfândega, ficando impedido de viajar. Por este motivo, fomos orientados e treinados pela agência a negar firmemente a intenção real da viagem e dizer que estávamos indo visitar parentes.

No meu caso era fácil e simples comprovar que estava indo para o Japão visitar o meu pai. Bastava apresentar a carta que me enviou me convidando para ir lá e passar um tempo com ele. As passagens de ida e volta asseguravam este objetivo. E foi o que tive que fazer. Naqueles instantes eu só não desisti pois, ao pegar nas passagens vi o valor que teria que pagar pela viagem. Se desistisse, alguém da família teria que arcar com as dívidas, acarretando uma situação constrangedora, a qual eu nem queria pensar... Como a viagem estava combinada com o meu pai, devia honrar a minha palavra. Quando fui liberado pela alfândega, segui para o portão de embarque do meu voo.

- Meu Deus, por que tudo tem que ser assim? – Perguntava lastimando, olhando para o longo corredor que parecia não ter fim, repleto de passageiros que andavam alegremente, conversando sobre seus planos e sonhos que queriam realizar no Japão e, de como iriam sentir saudades do Brasil e da família que ficariam sem ver por anos. Ouvindo essas palavras, sentia o meu coração sangrar. A dor que carregava no meu peito dilacerava o coração. Sentia-me sozinho. Lembrava-me dos últimos momentos lá no aeroporto de Brasília.

Minha mãe sentada tentando controlar tudo em volta, enquanto as crianças corriam de um lado para o outro. Enquanto esses pequenos anjos gritavam e riam, de forma inocente, não tinham a mínima ideia do que estava acontecendo comigo. Aos poucos, meus irmãos, a cunhada, os cunhados e os sobrinhos chegavam e iam se reunindo em volta da minha mãe. A preocupação dela, como sempre, era a de que todos estivessem presentes, perguntando sempre quem estava faltando. Pedia para uns irem buscar alguma coisa para todos lancharem, enquanto soltava broncas nas criançadas.

Nesse meio tempo a minha cunhada chegou perto de mim, e me entregou um pacote dentro de um saco branco de plástico para levar na bagagem de mão, dizendo que continha umas revistas para entregar a um amigo da nossa família, que estava trabalhando no Japão. Estava muito bem amarrado, por isso nem tentei abrir para olhar o conteúdo e pus dentro da minha sacola de viagem.

Ver toda a família ali reunida, aguardando a minha partida, era comovente. Já antecipava a imensa saudade que ia sentir de todos que teria que deixar. A agitação em volta, às vezes me deixava um pouco tonto, porque na verdade, estava apavorado com a viagem. Olhando para a minha mãe conversando com os meus irmãos, percebia a sua preocupação, ao olhar para mim enquanto falava com eles. Todos sem exceção agiam de forma que pudesse evitar uma confusão entre eu e a minha ex-mulher, que prometera bagunçar a minha viagem, promovendo um escândalo lá dentro do saguão do aeroporto. A vigilância da família à minha volta estava cerrada.

Devido ao atraso de mais de duas horas do voo que me levaria para São Paulo, minha mãe ficou mais preocupada e chamou o meu cunhado para um canto do saguão e ficou um bom tempo conversando com ele. Depois, junto com o meu irmão foram para um guichê e voltaram com uma passagem dizendo que o meu cunhado iria junto comigo até o aeroporto de Guarulhos. Olhei para minha mãe, questionando esta atitude e a resposta que obtive foi a de que ela sabia o que estava fazendo e que seria melhor assim. Era para ela ficar tranquila sabendo que eu iria mesmo embarcar para o Japão.

A voz feminina no alto falante, que convocava os passageiros, indicando a última chamada para a apresentação de cartões para o embarque imediato, trouxe-me de volta para o lugar onde estava.

Olho para o painel de controle e procuro identificar a confirmação da decolagem do meu voo. O da JAL 063 seria a próxima chamada. Anotei mentalmente o número do portão de embarque e ao olhar o que estava à minha frente, vi que era por onde eu iria embarcar. Instintivamente, olhei através da imensa vidraça em que dava para a pista e, deparei-me com um enorme monstro branco que olhava para mim. Senti a minha espinha gelar de cima para baixo. Um suor começou a jorrar pelos poros, quando comecei a entrar em pânico. Eu tinha medo de altura.

Aquele Boeing 747 da JAL parecia mais um prédio de dez andares.

- Meu Deus! – disparei – Será que este troço vai voar?!

Em pé, diante daquela imponência da engenharia aeronáutica, me sentia frágil e indefeso como um mosquito. Não conseguia acreditar naquele monte de alumínio e aço, de uns 20 metros de altura, com mais de 70 metros de comprimento e quase 65 metros de envergadura, transportando cerca 400 passageiros e levando um peso de 400 toneladas, não sinceramente, não dava para acreditar que aquele Jumbo pudesse voar. Muito menos decolar.

Voltei para a poltrona onde estava sentado e fiquei preocupado. Agora, não era mais o medo de altura e nem se aquele elefante branco fosse voar. Havia um sentimento de percepção das coisas que iam ocorrer e como elas aconteciam com tanta frequência na minha vida, que nunca duvidei da existência deste “dom”. Esta consciência evitou muitos aborrecimentos e tragédias. O que eu estava vendo naquele momento causou uma sensação aterradora. Me via indo para o Japão mas não conseguia ver o meu retorno. A minha facilidade em ver o futuro abrangia um raio de alcance que atingia até duas décadas à minha frente. Neste caso, da minha viagem, eu não conseguia enxergar o ano de 1991. Era um quadro invisível. Isso significava que eu não retornaria com vida desta viagem. Foi esta visão que tive enquanto olhava o avião.

A pergunta então era essa: - “Será que este avião vai chegar ao Japão?”.



Em Luz e Amor,
Shima.


... continua...


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