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quinta-feira, 20 de agosto de 2020

O Lado Cômico do Regresso - 25.07.2012

Foto tirada em setembro/2010
em Salto do Corumbá, GO



RECONSTRUINDO A PONTE


O relato desta história é feito baseado no meu diário pessoal, cujas anotações foram registradas em meus cadernos e agendas contendo eventos, ocorrências, datas, valores e nomes de pessoas que participaram destes acontecimentos na minha vida. Conta a trajetória dramática durante o meu retorno e a minha tentativa de reinserir na sociedade brasileira, da qual havia ficado ausente por longos anos.

Nada na vida é fácil quando se está em jogo o próprio drama pessoal.


Época de Ouro no Japão, 1997/98
Durante três anos – de julho/2006 a julho/2009 – como um ex-dekassegui (aquele que trabalhou no Japão) passei por situações das mais absurdas que se possa imaginar. Tentei me readaptar no Brasil de forma consciente, sabendo das dificuldades que teria pela frente. Por ter vivido tantos anos fora do país, tinha como prioridade fazer um checkup médico e psicológico, pois sentia esta necessidade, ao me sentir um estranho na própria terra onde havia nascido.

A decisão de retornar ao Brasil teve vários motivos, mas dois fatos tiveram importância fundamental para a volta definitiva. O falecimento do meu pai em junho de 2004 e a cirurgia da minha mãe em outubro de 2005. Além desses acontecimentos tive outras razões que acabaram antecipando a minha saída do Japão: O término de uma relação afetiva de 14 anos; A necessidade de descobrir o que ocorreu com um investimento que foi feito numa cafeteria em Santos/SP; Saber a verdade sobre a ajuda financeira que eu estava realizando por quase um ano e cujo acordo de pagamento do empréstimo não foi cumprido; A falta de perspectivas e de objetivos para permanecer no Japão, além das saudades dos filhos, netos, familiares e a vontade de realizar um velho sonho.


"Aqui neste ponto devo ressaltar que era comum a família de um dekassegui no Brasil dar todo o apoio ao membro que trabalhava no Japão realizando investimento do dinheiro que era enviado periodicamente para a compra de terrenos, imóveis, negócios, carros, etc. Essa ação conjunta familiar finalizava com êxito o objetivo do dekassegui que se aventurava do outro lado do planeta.

No meu caso, isso não ocorreu conforme era a tradição da colônia japonesa e na única vez que fiz um investimento na compra de um terreno em Brasília vi todo o dinheiro de dois anos de trabalho no Japão virar fumaça, quando o corretor fugiu com esse investimento e de outros que haviam comprado terrenos no condomínio de uma cidade em Brasília.

Por isso, com a falta de apoio familiar, optei por arriscar um investimento na montagem de uma cafeteria na cidade de Santos/SP que foi um dos meus sonhos realizados. Infelizmente o shopping onde havia investido parte dos meus recursos faliu e a perda foi irreparável."


Anos se passaram e nesta ausência – 1990 a 2006 – encontrei um país transformado. O choque foi imenso ao tentar refazer a minha vida. Encontrei diversos obstáculos para começar a viver como cidadão brasileiro. Primeiro porque a despedida do Japão foi difícil, causando uma nova dor. Mesmo com algumas lembranças amargas, a missão estava cumprida. Trazia comigo outro conflito interior, a solidão e as incertezas da volta ao Brasil.

A realidade no desembarque causou um choque. O impacto ocorrido em solo japonês quase duas décadas atrás, acontecia agora no Brasil, tornando-me refém das circunstâncias. O susto com as condições de vida das pessoas com quem iria conviver, as pressões psicológicas dos primeiros dias e a confusão mental se estabeleceu no meu interior.

Precisei atualizar meus documentos, alugar um imóvel para morar e iniciar uma atividade profissional. Como passei a morar numa cidade onde nunca vivera antes, tive os primeiros problemas. Foi exigido comprovação de renda e, comprovante de endereço, mas eu tinha acabado de chegar ao país vindo do Japão.

Como comprovar renda se não estava trabalhando? Como ter um endereço se não conseguia alugar um imóvel que exigia comprovação de renda? E como iniciar uma atividade econômica se não podia alugar uma sala comercial? Ainda tive complicações para renovar meus documentos pois não tinha comprovante de endereço, é mole?

A ajuda familiar amenizou o sufoco, mas não consegui caminhar muito por questões do dia a dia e dificuldades para entender a mudança ocorrida no Brasil, devido ao longo período vivido fora do país.

Em meu retorno ao Brasil trazia na bagagem um projeto baseado na racionalidade e na minha experiência de vida. Tinha também a primeira oportunidade de realizar um sonho antigo. O primeiro mês na cidade de Santos foi marcado por decepções e frustrações, com acusações e a necessidade de comprovar a minha idoneidade moral. A chantagem moral e emocional de que fui vítima ocasionaram circunstâncias e compromissos que me impediram de voltar para Brasília.

Entrei no segundo mês abatido pelas dificuldades de resolver as questões de documentos e a situação se complicou com os constrangimentos constantes que vivenciei em relação ao local de moradia. Na busca diária para encontrar uma solução para o meu empreendimento ou arrumar um emprego, esbarrei na realidade de um ex-dekassegui junto ao mercado de trabalho no Brasil: fui simplesmente excluído.

Assim como foi na ida ao Japão, passei a viver praticamente os mesmos dramas na volta ao Brasil. O primeiro choque veio com a crise de identidade. Cresci no Brasil sendo chamado desde criança de “japonês”, mesmo tendo a consciência de que era brasileiro.

Conhecer Okinawa em 1990 foi uma realização
Ao chegar à terra do sol nascente a realidade cai como “água fria”. Podia ter a aparência física de lá, do povo de Okinawa, carregar um sobrenome japonês, ter um comportamento parecido e os documentos comprovando que era filho de um nativo de lá. Mas descobri que era mesmo um estrangeiro e como brasileiro sempre fui tratado como tal e, em muitos casos, de forma humilhante.

Quando voltei ao Brasil – após 16 anos vivendo no Japão – mesmo tendo o passaporte brasileiro e todos os documentos exigidos pela legislação do país, estava sem condições legais de exercer qualquer atividade como cidadão brasileiro. O lado cômico era que primeiro eu tinha que provar que era brasileiro e depois – parecia uma piada – tinha que comprovar que existia de fato – mesmo que o funcionário (às vezes de mau humor) que me atendia, estivesse vendo-me bem na frente em carne e osso, tentando sorrir para ele - e para isso tinha que apresentar uma série de documentos.

Aí começaram os “apuros” da minha peregrinação, tendo primeiro que encontrar todos os locais onde deveria comparecer para resolver os problemas.

A falta de condições financeiras para pagar as contas e comprar alimentos, aprofundou a crise de relacionamento pessoal com outras pessoas que geraram reações dramáticas, de consequências imprevisíveis, causando muitos desgastes físicos, mentais, emocionais e psicológicos, quase que diariamente.

A empresa
Já no terceiro mês, bastante cansado, tive invasão da minha privacidade com a perda do meu espaço. A incapacidade de impedir a destruição do que restava do meu pequeno patrimônio e objetivos, foi consumado. Começaram as interferências externas na minha vida particular. A pressão da proprietária do imóvel onde residia e trabalhava começou a me perturbar devido à vigilância constante que inibia minhas atividades profissionais. Roubaram minha linha telefônica ocasionando a intervenção da polícia.

Depois ficou praticamente impossível permanecer naquele local. O golpe final veio após uma acusação infame, por parte da esposa da pessoa que havia emprestado o nome dele para alugar aquele imóvel. A discussão encerrou a permanência em Santos.

A luta agora era manter o equilíbrio interior e o bom senso diante dos imprevistos e das pressões que eram exercidas por pessoas inescrupulosas. Contrariedades, frustrações, irritações, passaram a ser acontecimentos constantes. Fui abatido pela incerteza quanto ao meu futuro.

Nem terminou o mês de outubro e já me sentia contrariado mais uma vez, aceitei ir morar em São Paulo. Tinha vergonha de voltar para Brasília, derrotado como estava. Não tinha coragem de encarar a família que tentou me ajudar no início. A decepção era muito grande! Sem ter para onde ir, sem perspectivas, deixei-me levar e ver no que ia dar. Novamente incapaz e ao mesmo tempo refém das circunstâncias, transferi os problemas para São Paulo onde pensei que poderia resolvê-los depois.

Em São Paulo novas ocorrências passaram a acontecer numa sucessão de fatos, quando um dos casos aflorou de forma inesperada, já que após o meu retorno do Japão a Receita Federal bloqueou o meu CPF sendo necessário o comparecimento no escritório da Superintendência na capital paulista. Enquanto isso, os meus direitos de cidadão estavam impedidos de serem exercidos, incluindo a conta bancária que foi bloqueada e não podia receber os recursos que viriam do Japão.

Então, por cinco anos conforme acordo firmado com a Receita Federal estava em dívida ativa com a União em razão da falência da fábrica do meu pai ocorrida em 1981 ficando o meu CPF inserido na lista negra até a quitação final que ocorreria somente em 2011, impedindo neste ponto de participar de qualquer concurso público.

O fato de ver todos os meus projetos serem acabados, não ter mais dinheiro para recomeçar e, sem o único instrumento do meu trabalho, me fez entrar em pânico. Assim mesmo confiei e mantive a fé, fui em frente.

Toda a peregrinação que percorri em Santos repetiu-se na capital Paulista. Com a transferência de cidade e de moradia refiz a “via crucis” atrás de novos documentos. Os problemas e conflitos com a família com quem passei a viver se avolumavam enquanto tentava se adaptar à nova situação. Mesmo sem conseguir emprego tentei sobreviver. Os primeiros sintomas de abalo físico foram evidentes. Muito magro, sentia fraqueza constante, tendo desmaios na rua.

Não consegui mais administrar as situações que passaram a acontecer em minha volta, com minhas condições físicas, mentais e psico-emocionais abaladas desde os primeiros dias do meu retorno ao Brasil, impediram que eu continuasse em São Paulo. Senti a necessidade de um descanso, de um longo repouso. Umas férias em Brasília tornam-se necessárias.

Dias depois, após cinco meses de fracassos e decepções, viajei para Brasília.

Uma vez em Brasília, passei a residir na casa da minha mãe. Avisei a todos que precisava ficar um tempo de férias para me recuperar fisicamente. Nos dias que se seguiram, a preocupação imediata era se recuperar fisicamente – tinha perdido nove quilos desde a volta ao Brasil – e tentava me distrair ao máximo para esquecer o desfecho ocorrido em São Paulo.

Dezembro/2006
Aproveitei para fazer um check-up completo das minhas condições de saúde, inclusive procurei um psicólogo – sentia-me abalado emocionalmente – e queria ter a certeza de que tudo estava bem comigo. No fim de um mês já estava completamente recuperado e os exames não detectaram nenhuma anormalidade.

O mês de dezembro de 2006 foi um período complicado e bastante confuso. Nem mal havia me estabelecido em Brasília e já fui pressionado diariamente a procurar um emprego, causando uma nova contrariedade. Recebi um convite de trabalho por parte de um cunhado e tentei recusar. Desejava apenas descansar um pouco. Depois de 16 anos longe daquela cidade, queria apenas me reencontrar.

A pressão da família me obrigou a aceitar a oferta de emprego. O novo trabalho, a saúde precária, o desconforto em morar na casa da minha mãe, a dificuldade de readaptação em Brasília, a confusão que estourou em São Paulo, as discussões em família, a cobrança para resolver o problema da casa em que morei em São Paulo, porque a família com a qual tinha convivido ocupou a casa na minha ausência. Tentei redirecionar o rumo da minha vida, tomando decisões precipitadas para solucionar todos os problemas que surgiam a todo instante.

Sentindo-me só naquele turbilhão em que se tornou a minha vida, procurei conviver amorosamente no trabalho, enfrentando desafios nos relacionamentos com amigos, devido à longa ausência. Quando olhava para mim mesmo, me assustei com o tempo. Foram-se seis meses tentando se adaptar ao Brasil. E, ainda tinha muitos problemas para serem resolvidos.

Nesse tempo procurei me atualizar fazendo uma nova readaptação na cidade que para mim, estava completamente “desfigurada” encontrando uma série de dificuldades para se locomover e até encontrar determinados locais. Muitas vezes entrava “em parafuso” sem entender direito onde estava. A confusão mental era constante e durou um bom tempo até que me habituasse novamente nesta cidade que praticamente me viu nascer.

A maior dificuldade consistia mesmo nas minhas relações com os membros da família. Sentia-me um estranho como se fosse uma visita que tinha acabado de chegar. Sentia um certo “mal estar” até mesmo junto aos meus irmãos e sobrinhos. Tudo estava tão diferente, tão mudado. Não me sentia à vontade ao lado de ninguém. Percebia que ninguém notava que eu estava em apuros, porque eles estavam ali o tempo todo - nestes longos anos em que fiquei fora - mas eu não. Vivi 16 anos fora, do outro lado do planeta.

Achava aquilo tudo – a vida, lugares, pessoas – tão fora de contexto que deixava uma sensação de angústia e de agonia. Ficava profundamente sem graça, pelos “foras” que dava, trocando o jeito de falar e agir. Misturava o idioma japonês nas conversas via celular e sempre abaixando a cabeça em qualquer situação de chegada ou saída de um lugar, como sempre fiz este tempo todo fora do país.

No contato com o público e com os clientes da empresa – trabalhava na área de vendas – as dificuldades eram latentes exigindo uma mudança de hábitos a cada instante, isto tudo, causava certo estado de pânico, porque custava a “cair a ficha” pelo meu desconhecimento com as novas “gírias” e comportamentos da nova geração de pessoas com os quais tinha que conviver.

Apesar dessas dificuldades procurava encarar tudo com bom humor, divertindo-me com as próprias “mancadas”, rindo muitas vezes sozinho no meu quarto. Continuava a gostar de ler e ouvir músicas e, essas eram as duas coisas que amenizavam a minha “solidão”. O trabalho na fábrica me envolvia muito também e isto ajudava demais na minha readaptação.

A permanência em Brasília naqueles dois meses – dezembro de 2006 e janeiro de 2007 – foi marcada por acontecimentos alegres e algumas decepções. Rever minhas filhas, a neta e meus dois netos foi emocionante e suavizou o coração que estava em conflito. O reencontro com o restante da família causava uma sensação de nostalgia e também um grande problema em se relacionar com eles ficando muitas vezes, constrangido diante de cada um, devido às mudanças ocorridas - e que eram tão marcantes entre nós – fazendo-me sentir um “estranho no ninho”.

A maior dor foi ficar longe
dos pequenos tesouros
“Tinha viajado para o Japão com 32 anos de idade deixando para trás quatro crianças pequenas – três filhas de 11, 10 e 6 anos e um filho com oito anos - que eram a razão da minha existência naquela época. Deixei duas empresas – uma editora e um jornal da cidade – e também, os conflitos traumáticos de um casamento que tinha acabado em 1985.

O motivo dessa viagem – ocorrida em março de 1990 - era um pedido da família para buscar o meu pai que vivia naquele país e estava com a saúde precária. A volta estava marcada para antes do fim daquele ano.”


“Após uma longa trajetória por um país com uma cultura, uma tradição e um idioma totalmente diferente, vi-me retornando para o Brasil – em julho de 2006 - com quase 50 anos de idade e uma experiência de vida que jamais imaginei viver um dia.

Estava cansado, com mais um relacionamento desfeito – que durou 14 anos - indo morar numa cidade que não conhecia à beira-mar – Santos - e teria que começar uma nova vida numa situação inusitada e bastante complicada, porque voltava com apenas R$ 292,84 no bolso e era tudo o que restara daquela grande aventura no outro lado do planeta.”

O mês de fevereiro de 2007 começou de forma promissora e cheia de grandes perspectivas e, a minha intenção era alugar uma quitinete e viver sozinho. Feito estes planos procurei tocar a minha vida, afinal já entrava na meia idade e precisava repensar todo o objetivo para o meu futuro.

Mal entrei no segundo mês, acontecimentos surgiram de todos os lados acarretando novas situações constrangedoras. Iniciou-se uma série de cobranças morais criando a necessidade de encontrar soluções práticas e rápidas. Sentia-me a ponto de implodir de tanta pressão externa.

Os conflitos se generalizavam. Desentendimentos com a família se agravaram, antecipando a saída da casa da minha mãe. Ainda em dificuldades de readaptação em Brasília, sem conseguir uma inserção na família, sentia-me cada vez mais estranho no meio em que vivia. Sem um apoio amigo, passei a ter problemas de relacionamentos.

O mundo em volta começou a desmoronar novamente. Muitas cobranças que não pude honrar tornaram a minha vida tumultuada, trazendo desconfianças de todos os lados. Deixei de acreditar nas pessoas mais próximas. Recomeçaram as discussões em família. O meu trabalho foi cancelado, ocasionando mais decepção e insegurança. As acusações graves por parte de um dos irmãos colocaram um fim na minha estadia em Brasília.

Sem saber para onde ir e o que fazer vi-me numa situação inusitada. Onde foi o desejo de apenas descansar e tirar umas férias, após tanto tempo fora de casa?

A cabana em Alto Paraíso
de Goiás
Fev/mar 2007
As consequências de cada situação, agora, eram praticamente impossíveis de serem gerenciadas. Nada mais poderia fazer senão partir para bem longe dali. Queria apenas um lugar tranquilo que servisse de refúgio, onde a paz pudesse ser reencontrada. Era tudo o que desejava, depois daqueles dias turbulentos.

Assim, jogado à própria sorte, fui parar na cidade de Alto Paraíso de Goiás. Lembro-me que neste dia estava na Rodoviária olhando os guichês de vendas de passagens e como estava sem um destino na mente, comecei a procurar um lugar, olhando apenas os destinos de cada linha de ônibus e ao ver o nome da cidade de Alto Paraíso de Goiás, escolhi este destino porque já tinha feito uma visita lá e  tinha gostado muito.

Nesta nova etapa, querendo desvendar o mistério que me envolvia com outra pessoa que estaria me acompanhando nesta jornada, aceitei todos os riscos e, conscientemente enveredei-me por um caminho conflituoso e sinistro. A aura que envolvia a região no norte de Goiás era fantástica. O lençol cristalino potencializava todos os aspectos humanos, aflorando tanto o seu lado positivo quanto o negativo.




A luta contra os tabus
e preconceitos
Durante a minha estadia de quase dois meses, senti o tempo parar. Foi um processo lento e gradual que promoveu a cura de diversos pontos nebulosos que trouxera do Japão. O desenvolvimento interior se intensificou, causando um reencontro comigo mesmo. Recuperei parcialmente o meu lado físico sem me preocupar com as pressões psicológicas a que fui submetido.

Resolvi retornar a Brasília e tentar novamente recomeçar a vida. A busca por um emprego foi minha prioridade.

A chegada em Brasília surpreendeu-me. Os laços familiares estavam cortados e, sem o apoio que tanto necessitava, acabei em apuros. Era véspera da Paixão de Cristo. Para conseguir um emprego e um lugar para dormir tive que improvisar.

Dormi nos bancos em lugares públicos, até numa casa abandonada. Para se alimentar – estava há dias sem comer – saía à noite e pedia humildemente, aos donos de restaurantes, um prato de comida. A cada dois ou três dias conseguia um. A vergonha, muitas vezes se traduzia em roncos na barriga.

Consegui o apoio de um amigo e isso me animou. Era um trabalho provisório, mas receberia uma diária. A luz no final do túnel começou a luzir.

Estava começando a acreditar na vida, nas novas possibilidades que surgiam. O sorriso voltava a brilhar no meu rosto. Tirei a longa barba, mas deixei os cabelos compridos. Virei excêntrico. Os amigos gostaram. Tinha o lado místico e espiritual. Isso era uma novidade para todos. Despertava a curiosidade sobre o Japão.

Ao longo de duas semanas tudo transcorria de forma tranquila e produtiva. As expectativas eram as melhores possíveis. Planos e projetos de trabalho iam se desenvolvendo. Ajudava numa loja lá na EPTG e fazia um plantão no Parkshopping. O contato com os clientes ajudava muito meu aperfeiçoamento pessoal, pois gostava de se relacionar com pessoas. À noite dormia num depósito da empresa.

Como se a sina da perseguição existisse de fato, na terceira semana começou a reviravolta. O meu amigo, dono da empresa, começou a ser pressionado para me demitir. Sem saber o que fazer, o meu amigo-patrão chamou-me para uma conversa e perguntou o que havia acontecido. Como ignorava os fatos e os motivos para tal atitude, disse que não havia feito nada de errado. Meu amigo resolveu me manter na empresa, mesmo sob a pressão constante da minha família que insistia para que ele não me desse emprego.

Durante alguns dias foi possível contornar a situação, mas semanas depois já era constrangedor olhar para as pessoas da empresa. No escritório, todas as funcionárias, já comentavam a pressão que o patrão estava recebendo por causa da minha permanência. Por este motivo fui chamado várias vezes para me explicar com a gerência da empresa.

Chegou num ponto que o escândalo ficou insuportável, porque toda a empresa já estava ciente do que estava acontecendo e os colegas me olhavam com desconfianças. Até que um dia, um dos meus parentes veio na empresa buscar o celular dele e mandou um recado da família dizendo que todas as portas em Brasília estavam fechadas para mim. Era a decisão da família.

Houve uma discussão entre nós dois no pátio do estacionamento em frente às lojas do Shopping Center, com clientes e lojistas assistindo a tudo. Depois deste incidente, não houve mais condições de permanecer naquela empresa. O comentário generalizou-se e fiquei marcado de forma negativa entre todos os presentes. Perdi a credibilidade e a confiança dos colegas.

Uma semana antes do Dia das Mães estava na estrada tentando pegar carona para São Paulo. Queria estar a mil quilômetros de Brasília. Quanto mais longe, melhor. Estava humilhado, envergonhado, magoado e desiludido com a vida. Apesar de tudo, sorria. Porque estava consciente e entendia a incompreensão de todos. Ninguém sabia o que eu tinha passado no Japão. Não tinham conhecimento da minha bagagem que tinha trazido do Japão.

Passei horas e dias caminhando a pé, dormindo em cima de papelões nos postos de gasolinas à beira das estradas e, comendo os deliciosos sopões que os donos dos restaurantes me serviam no final dos expedientes. Carregava sempre uma garrafa pet para encher de água nas torneiras dos postos ou nos casebres ao longo das estradas. Tomei banho de chuva, passei noites geladas, com o vento congelando meus ossos. Escapei de emboscadas de bandidos, mas encontrei “anjos” no caminho que me salvaram a vida e dos perigos na estrada.

Chalé rosa, modelo
Cinco dias depois de sair de Brasília cheguei em São Paulo, onde passei a morar na casa de amigos. Nesse meio tempo fiquei sabendo que toda a Polícia Civil do DF estava à minha procura a pedido de um membro da família. Fiz contato com um agente policial em Brasília e esclareci toda a situação. Ganhei no meu aniversário de 50 anos uma caixa de ferramentas para artesanato, que passou a ser o meu hobby e o meu ganha-pão. Desenvolvi um projeto de lindos chalés feitos com madeiras. Aos poucos fui aperfeiçoando as técnicas criando vários modelos alternativos. Comecei até a receber encomendas via internet.

Durante os meses seguintes procurei esquecer os incidentes de Brasília, mas as circunstâncias me envolveram novamente com o pessoal que havia causado tantos transtornos na minha vida desde o meu retorno do Japão. A minha persistência era conseguir solucionar as situações em que fui envolvido de forma vil. A dívida dos empréstimos era tudo o que queria receber. Não concordava com a situação em que vivia e com as pessoas que me relacionava, mas tinha que aceitar o óbvio. Não tinha para onde ir.

Dessa forma, deixei o tempo passar enquanto procurava uma forma de me profissionalizar. Tentei fazer um curso, mas sem dinheiro não deu. Pela idade estava difícil conseguir um emprego. O fato de ter vivido no Japão era uma barreira que também dificultava. Não contratavam os descendentes japoneses. Então a opção era continuar a luta e tentar me reciclar e estudar uma nova profissão. A que mais desejava – montar um estúdio gráfico – não era mais possível porque fiquei sem o meu computador – vendi para comprar alimentos - e não tinha dinheiro para investir na compra de outro.

Em várias ocasiões, sem dinheiro, após as contínuas discussões e conflitos naquela família com que vivia, acabei por ter que ir embora, vagando pelas ruas de São Paulo, dormindo algumas vezes na Avenida Paulista, passando a noite no sereno. Em busca de comida, passava pelas paradas de ônibus pedindo ajuda. As pessoas estupefatas me olhavam surpresas, porque nunca tinham visto um descendente de japonês em plena capital paulista, pedindo esmola. Como vergonha não enchia a barriga, eu sorria para todas elas, quando recebia umas moedas.

Em fevereiro de 2008 não suportando as situações constrangedoras em que vivia decidi retornar para o Japão. O meu passaporte estava vencido, mas tinha o visto permanente e a permissão de reentrada. Era a minha última esperança. Como estava sem dinheiro para renovar o passaporte resolvi pedir ajuda. Uma amiga que trabalhou comigo no Japão e que residia em São Paulo se prontificou a me ajudar. Aconselhado e convencido por ela a retornar a Brasília para reconciliar e pedir apoio atendi ao pedido dela. Ela conseguiu uma passagem de ônibus e embarquei no mesmo dia.

Fev/2008 - O fundo do poço
A dura realidade na minha volta foi deprimente. Somente uma filha me acolheu e me alimentou. Com a intervenção dela, um dos meus irmãos veio conversar comigo. Fui friamente atendido e ouvi calado todas as acusações que a família tinha contra mim. Pedi que me perdoassem e que estava disposto a aceitar uma nova oportunidade.

O que ouvi em seguida me chocou. O desprezo soou como uma bomba: “Aqui na família você não é mais bem vindo. Saia de Brasília e não volte mais!”.

Estarrecido, coloquei a minha filha a par do triste desfecho. Sabendo que ela estava vivendo um problema conjugal resolvi não causar mais transtornos e parti de volta para São Paulo. Não tinha mais para onde ir. Perdera todas as esperanças em meus sonhos.

Voltei para São Paulo e decidi mudar o rumo das coisas, mas ia lutar no Brasil mesmo. Possuía um crédito pelo empréstimo que havia feito e usei isso para sobreviver. E assim comecei outra peregrinação na minha vida, tentando começar do “zero” de novo.

Cinco meses depois de muitos conflitos interiores e problemas de relacionamento na família com quem vivia, fui envolvido numa situação sinistra e diabólica. Isso aconteceu depois de uma reunião onde fiz a cobrança dos empréstimos àquela família. Após ser dopado ao tomar um café antes de dormir, acordei no dia seguinte cercado de pessoas que me levaram para um Centro de Saúde Mental onde foi dito que eu sofri um surto psicótico, causando medo e susto nos moradores e que também quebrei os vidros da janela do apartamento.

Ainda em estado de alienação devido ao "remédio", não consegui articular algo convincente. O psiquiatra então, me induziu a assinar um documento de internação. Logo em seguida me vi só e desamparado num lugar que nunca em minha vida havia entrado. Fui abandonado ali mesmo.

Passei o dia e a noite sedado, sob o efeito dos novos remédios. Na manhã seguinte, recobrei a  lucidez e percebi a armadilha em que fui envolvido. Questionei a internação, mas o pessoal recusou a me ouvir fazendo pouco caso.

Após uma entrevista com a junta médica, não encontraram evidências de anormalidade e me encaminharam para uma série de exames. Ao retornar para a clínica, o meu nervosismo foi realçado com a proibição de fumar. Naquele momento cometi um ato impulsivo: me revoltei.

Ação incorreta em local impróprio, deu no que deu.

Imediatamente fui jogado no chão por quatro seguranças e levado até uma maca onde fui amarrado. O enfermeiro chegou e aplicou uma injeção “sossega leão” e pronto. Tudo se apagou.

Mais tarde fui acordado e tratado com muita atenção e cuidado. Um dos meus irmãos estava chegando de Brasília para me buscar. Não queriam confusão. Ofereceram cigarros e ficaram sempre sorrindo e perguntando se estava tudo bem. Confuso ainda, não conseguia coordenar os pensamentos. Estava dopado.

Local de retiro no
Instituto de Saúde Mental
Assim fui levado para Brasília. No dia seguinte fui encaminhado ao Instituto de Saúde Mental do Riacho Fundo I. Na avaliação psiquiátrica o médico condenou  o uso do medicamento que tinham aplicado em mim e confiscou o frasco de remédio de tarja preta, comentou que eu não tinha nenhum sintoma para receber aquela medicação. 

Por causa do relatório enviado de São Paulo, foi aconselhado a internação e a necessidade de ficar em observação por três meses. Não havia outra opção senão aceitar a situação constrangedora e complicada em que fui envolvido. Só o tempo seria o melhor remédio. Estava plenamente ciente e qualquer recusa seria encarada como “doença”. O rótulo de “doido” estava caracterizado.



Um lugar mágico
Instituto de Saúde Mental
Aproveitei a “internação” para aprender e compreender a minha própria existência. Fiz muitas reflexões e análises, pois há parâmetros em todos os aspectos que passei a abordar nas minhas meditações diárias. Entendi o dilema em que vivia e comecei a planejar cautelosamente a minha “recuperação”.

Evitei sempre que podia, tomar os medicamentos. Nunca fizera uso de nenhum desde a minha juventude, nem no Japão. A ocorrência em São Paulo serviu de lição. Pratiquei constantemente a paciência evitando os impulsos emocionais, eliminando os rompantes que causaram tantos transtornos em meus relacionamentos.

Logo após o término do trimestre, pedi para ser liberado para uma viagem a Alto Paraíso de Goiás, onde pretendia desvendar um grande mistério na minha vida. Havia tomado também a decisão de colocar um fim naquele emaranhado de confusões em que me via envolvido. Tinha uma ideia de como fazê-lo, mas teria de ser feito bem longe dali, porque traria consequências desastrosas e poderia ser internado de vez num manicômio se falhasse.


Liberado pela psicóloga que cuidava do caso, parti para o norte de Goiás no final de 2008. A sorte estava lançada.

Aceitando as desculpas da própria "amiga" que tinha me jogado num sanatório através dos absurdos e mentiras forjadas, passei a acreditar mais na minha intuição, na minha capacidade de resolver aquele drama e no plano que havia traçado. Incrivelmente, vivenciava uma coisa bizarra para uma pessoa comum, mas estava totalmente consciente da trama que havia sido intencionalmente conduzida pela própria pessoa que me acompanharia nesta jornada. O final da história era uma incógnita. A única certeza que tinha era que só havia esta oportunidade. Se cometesse um erro, tudo estaria perdido.


Uma caminhada por
Alto Paraíso de Goiás
Nos primeiros três meses conclui o processo de desintoxicação do organismo por causa das medicações. Em seguida, através de um amigo xamã, foi retirado um implante energético que havia identificado durante o período de internação em Brasília, o que eliminou as dores que vinha sentindo sempre que fazia minhas meditações.

O passo seguinte foi quebrar a magia negra para retirar o “véu ilusório” que havia sido jogado sobre mim assim que pisei no Brasil. Esse encantamento era uma experiência que vivenciei durante o meu primeiro casamento e, portanto sabia como lidar com isso. Conhecia todas as técnicas utilizadas nesta magia.

Como parte do plano atrai para a cidade onde morava, mais uma pessoa que estava envolvida nesta trama e, que seria a peça fundamental para desvendar toda a mentira. Trazida de São Paulo, ela veio morar conosco. Em quatro meses, as sondagens foram feitas com essa pessoa, porque ela morava no mesmo apartamento na capital Paulista. Naquela noite em que fui dopado, nada de anormal ocorreu por lá segundo ela e, na verdade a única lembrança que se tinha da minha parte era que assim que levantei da cama, observei que tudo estava limpo e não havia janela alguma quebrada, porque tinha olhado para ver os raios do sol entrando por ela.

Revendo toda a história desde a chegada em Santos/SP em julho de 2006, comecei a juntar as peças que faltavam naquele quebra-cabeça. Uma a uma, o quadro foi montado mostrando todos os movimentos desde o seu início, ocorrido no Japão, a partir do meu encontro com essa pessoa que considerava uma grande amiga. 


Rodoviária de
Alto Paraiso de Goiás
De março a junho de 2009 passei a reconstruir a minha vida através dos relacionamentos que havia conquistado na cidade. Em pouco tempo comprei um terreno, recebi um espaço da Prefeitura na feira onde montei minha banca e transformei minha casa numa fábrica de pães de queijo que vendia no comércio local. Financeiramente, fui me recuperando aos poucos.

Em julho, ao mostrar que havia quebrado toda a magia negra e que essas duas pessoas haviam tirado as próprias máscaras, pedi a elas que se retirassem da minha vida e saíssem daquela casa. Feito isso, após a saída da casa, retornei dois dias depois para Brasília, para descansar um pouco e começar as negociações de um novo projeto que havia desenvolvido em Alto Paraíso de Goiás.

Tentando a reinserção
familiar
Na semana seguinte ao viajar de volta para a cidade goiana, fui alertado pela minha filha e uma irmã de que a casa havia sido arrombada pela polícia e que elas tinham feito uma acusação de agressão contra mim. A “Lei Maria da Penha” foi acionada e, desta vez, a situação tomou outro rumo inesperado. Não teria como provar a falsa acusação. A lei era rigorosa, sem fiança. Seriam seis meses vendo o “sol quadrado”.

Confirmei a acusação conversando com alguns amigos na cidade, pernoitei numa pousada às escondidas e no dia seguinte peguei o primeiro ônibus para Brasília. Estava finalizada a jornada de Alto Paraíso de Goiás, que apesar do desfecho surpreendente, caracterizava toda a armação e tornava público a atuação nefasta destas duas pessoas.

Dias depois elas enviaram cartas através do meu e-mail pedindo novamente que as perdoassem e confessavam a culpa delas, admitindo os danos causados nos últimos anos. Foi uma nova tentativa de reverter o desfecho diante da situação que elas mesmas criaram. Para mim, finalmente chegava ao fim o longo drama vivido desde o meu retorno ao país. As cartas provaram a grande mentira que foi feita no relatório médico em São Paulo, e foram entregues e anexadas no meu prontuário médico, junto ao Instituto de Saúde Mental.

O retorno definitivo para Brasília aconteceu três anos após a volta do Japão. Deixei um rastro de acontecimentos dramáticos e inimagináveis para uma pessoa tão comum, cuja sanidade fora colocada a toda prova.

Ainda faltava receber a alta médica e, para isso teria que ter a “paciência de Jó”, porque este processo levaria mais dois anos, até que fosse configurada a “cura” de algo que nunca tinha acontecido comigo. Esta foi a minha prioridade assim que retornei para a cidade que havia deixado quase vinte anos atrás.

Arrumei um novo emprego e comecei o meu processo de reinserção familiar, social e profissional. Reestruturei toda a minha vida para os próximos dois anos seguintes, traçando um objetivo com datas e metas a serem alcançados neste período. Fiz um curso profissionalizante no ano seguinte para me reciclar e num novo emprego, investi todo o meu potencial e minha experiência profissional, visando a minha futura aposentadoria. Estava feliz. Vivia feliz. Realizava um antigo sonho. 


Alcançando as metas fundamentais que havia planejado antes mesmo do final de 2011, vi de repente todos os meus projetos desmoronarem. Numa sequência escandalosa de acontecimentos que envolveram diversas pessoas, fui afastado do emprego e perdi a condição financeira para sustentar a minha vida.



Sempre focado na minha missão de vida

Mesmo assim, tentei recomeçar em outra experiência de vida. Voltei a estudar. Escolhi uma nova profissão. Entrei para a faculdade. Encarei um concurso público e passei.


Março 2012, dia da alta médica
Instituto de Saúde Mental
(ao lado do amigo Sam, o poeta)
Em março de 2012 recebi a tão esperada alta médica. Vivenciei de novo outros dramas, superei algumas tragédias pessoais, experimentei profundos conflitos existenciais e resolvi fazer uma nova jornada espiritual que culminou com a mais surpreendente e inesperada descoberta sobre mim mesmo.

A reviravolta foi intensa. Um novo emprego surgiu até que fosse chamado para integrar o quadro do serviço público.  E, assim continuei a minha caminhada, pois compreendi tudo o que ocorreu na minha vida. Tive a consciência da minha missão de vida, que se tornou sagrada! Reencontrei-me comigo mesmo. A paz em meu coração se restabeleceu.

A fusão com meu Eu Superior
ocorreu no dia 20/05/2012
Olhei para frente e vi um futuro promissor mesmo sabendo que agora era a vez do mundo sofrer uma reviravolta. Sabia também, que este mundo poderia sobreviver da mesma forma como aconteceu comigo. Que bastava apenas um sentimento para superar todas e quaisquer dificuldades que pudessen surgir diante de um ser humano.

Este sentimento é uma lição de vida que carreguei durante quase toda a minha vida e foi um ensinamento que recebi do meu querido Mestre e Pai espiritual:


“Onde quer que estejas... seja o Amor!
O que quer que faças... seja o Amor!
Aconteça o que acontecer... seja o Amor!”

E isto, basta.

Paz!
Shima

Artigo complementar:

SÍNDROME DA VOLTA - 21/11/2009
https://www.kyuukeimagazine.com/2019/06/a-sindrome-da-volta.html

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